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7.09.2015

quero um abraço



a Orfeu Negro sob a chancela Orfeu Mini tem sido uma das editoras a que é impossível resistir quando edita um livro, seja original ou traduzido como é o caso de Quero Um Abraço da italiana Simona Ciraolo.

o Filipe, um pequeno e solitário cacto descendia de uma família antiga e ilustre, que gostava de parecer bem e que era sempre muito certinha.



ao contrário da família de Filipe a nossa é uma família de abraços e de poucos beijos.
os abraços são mais físicos e mais sentidos do que os beijos.

vulgarmente as pessoas despedem-se com um abraço como um cumprimento cordial, mas eu não falo do abraço da "pancadinha nas costas", mas sim daqueles que damos para dizer o quanto GOSTO DE TI, seja ele a um filho, a um familiar ou a um amigo.

abraçar é quase um virar do avesso, é preciso um à vontade, e um carinho imenso. abraçar é um acto intenso de quem quer mostrar esse amor pelo outro, ao contrário do beijo que se torna fácil.

os beijos podem ser traiçoeiros. Cristo foi traído com um beijo. às crianças pede-se que dêem um beijinho e como eu não gosto de inhos, fico-me pelos beijos.

um dia, o Filipe conheceu um novo amigo. corajoso, confiante...
mas incapaz de resistir aos seus abraços.

não é um caminho fácil para Filipe que aos poucos aprende a gostar de estar sozinho.


fechando-se na sua casa e em si próprio.

até que um dia a sua solidão cruza-se com outra solidão e percebemos que existem pessoas especiais a quem os abraços fazem sentido.

sim, já estou cheia de saudades dos teus braços

este texto é dedicado ao José a propósito de uma conversa que tivemos há dias e ao Manuel o menino que é por si um abraço.

6.26.2015

não fui eu

agora com o fim das aulas, a frase, não fui eu, anda bastante mais afastada. com a mestria que nos habituou, Oliver Jeffers traz para o palco um tema que todos nós pais, educadores ou professores estamos habituados a lidar, mas a pergunta que se impõe é como estamos a tratar este assunto.

quantas são as discussões que não se se percebe muito bem como começaram e as vezes que nos zangamos sem uma razão válida.

ter consciência destes pontos leva-nos a desvalorizar os conflitos ou pelo menos a tratá-los de uma forma bastante mais saudável.

ensinar os mais novos a lidar com os conflitos, as frustrações, é prepará-los num crescimento saudável, de cabeça limpa...



este livro fala exatamente do valor de uma boa amizade e quão tontas podem ser algumas grandes discussões.

ensinar os mais pequenos que todos temos defeitos e fragilidades, mas que temos também muitas qualidades e sobretudo ensiná-los a dimensão de cada uma fará com que a tolerância seja maior.

Os Nicos em Não Fui Eu, é o primeiro de uma nova série desenhada e criada por Oliver Jeffers e que tem previsto para agosto mais um livro da série Lápis, ainda em inglês,The Day The Crayons Came Home 

a dúvida é se conseguimos esperar pela Orfeu...

2.15.2015

a escola nunca mais será igual

apesar de ser muito recente no mercado português, já tinha tido a oportunidade de levar, "Não fiz os trabalhos de casa porque...", para os meninos com quem trabalho, antes de ter tido a oportunidade de ouvir a voz de Davide Cali no Colóquio "É então isto para crianças?"

confrontados com esta grande questão, percebi que as desculpas eram na sua maioria muito iguais e longe da imaginação prodigiosa de uma criança.

apesar de não desenvolver o meu trabalho assente em livros, são muitas as vezes que iniciamos os ateliês vendo as obras de grandes mestres da escrita e da ilustração.

hoje acredito que da próxima vez que aqueles meninos não fizerem os seus trabalhos, o dia de aulas será muito diferente.

longe de serem desculpas esfarrapadas, refletem no fundo aquilo que a nós adultos nos apetece dizer quando por qualquer motivo falhamos um compromisso.

apetecia-me mostrar muito deste livro, mas são tantas as desculpas e qual delas a melhor.

resolvi trazer duas páginas que traduzem os mercados editoriais. originalmente proposto para um público americano, o autor e ilustrador viram-se obrigados a alterar a página onde se lê que a criança foi atacada por Vikings.

originalmente o protagonista da história desculpa-se com um ataque de índios, algo que está muito presente no nosso imaginário dos filmes Westerners, mas não, o mercado americano não se consegue rir desse passado que mancha a sua história.

também a cantora sofreu alterações, depois de um fato de banho, passou para um top e uma minissaia que a deixou mais sensual e mostram-se ainda incapazes de lidar com o assunto corpo.

aparte destes detalhes o livro está cheio de deliciosas desculpas e brilhante será a criança que use da sua imaginação para contar a versão mais absurda na próxima vez que se esquecer de fazer os trabalhos.

as ilustrações são de Benjamin Chaud e já conhecíamos o seu trabalho através dos livros, "A Cantiga do Urso" e "As Férias do Pequeno Urso" também editados pela Orfeu Negro sob a chancela OrfeuMini




6.27.2014

boa viagem bebé!


Boa viagem bebé! é a estreia de Beatrice Alemagna no universo dos livros para a primeira infância.

encontramos um bebé compenetrado nos preparativos para esta viagem. não é a primeira e não será a última, mas nada pode ser esquecido.

estas páginas fizeram-me recordar este "projecto" (histórias de mim, contadas por ti) que tinha como único objectivo o recordar momentos que se vão perdendo no tempo.

esse projecto parou a partir do momento em que o M. ocupou com os seus desenhos as toalhas de papel dos restaurantes.

não na hora de ir para a cama, mas na hora de descermos a grande escada da nossa casa, havia sempre "O" brinquedo preferido que nos acompanhava nessa longa viagem.

tornando essa viagem ainda mais longa por causa de "O" brinquedo preferido.

 e esta outra viagem continua...

até na escolha do livro preferido.
são nestes pequenos detalhes que encontro a genialidade de alguns ilustradores, nomeadamente nas referências a outros autores como é o caso a Leo Lionni e ao seu "Pequeno Azul e Pequeno Amarelo"




esta é a única página que vejo com alguma pena por coincidir com o centro do livro quebrando a leitura deste momento.

um livro que serve para os pais reflectirem na importância de criar um ambiente calmo, sereno e em paz, para que as crianças sintam a hora de dormir como algo natural, sem dramas, choros e birras e ainda na importância de as crianças terem horários, de se deitarem cedo, para que as manhãs possam ser bem vividas.


6.06.2014

hoje sinto-me...

estávamos em dezembro de 2013 e o Manuel trazia para casa pelas mãos da professora de português um papel que anunciava o II Concurso Internacional de escritores lusófonos infanto-juvenis destinado a crianças dos 8 aos 14 anos.

o M. ainda com 9 anos propôs-se a concurso com um texto qb de louco. um texto que por iniciativa dele já o tinha começado muitos meses antes de saber da existência deste concurso.

assisti à escrita nos mais diversos sítios, nos mais diversos suportes. escreveu, reescreveu, ilustrou-o, dobrou folhas como se de um livro se se tratasse, mesmo sem saber como se faz um livro.

a primeira vez que li o texto, refém de um português correcto disse-lhe que tinha um erro. fui corrigida. percebi ao longo do texto da sua capacidade de reinventar palavras num jogo quase visual e sonoro. fui confrontada com uma criatividade que só a alguns é permitida ou a crianças que têm 9 anos.

Hoje Sinto-me de Madalena Moniz descreve o que foram estes meses de compasso.

em janeiro chegaram às mãos da organização cerca de 500 textos vindos de vários cantos do mundo, como Angola, Brasil ou Macau.

e esperou...

o mês de fevereiro trouxe a notícia que o texto do Manuel "foi selecionado por membros de La Atrevida, entre os melhores textos do concurso..."


e foi motivo para se sentir Audaz ou Atrevido.

e mais uma vez esperou...

abril chegou no seu primeiro dia e não em versão de mentira com o veredicto do júri. o texto do Manuel estava entre os escolhidos para serem publicados na II Antologia Atrevida.

e é caso para se sentir Forte e Genuíno. O mérito é dele e mesmo podendo não estar entre os três primeiros textos premiados, é motivo para se encher de orgulho.

domingo é a entrega dos diplomas e prémios no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa e sei que estarás assim...

Nervoso...
Baralhado...

Minúsculo

mas acima de tudo deves sentir-te Querido, porque vamos lá estar (quase) todos. e os que não estarão presentes têm-te sempre junto do coração.


até lá vamos descansar

ainda no domingo quem quiser fazer-nos uma visita, vamos estar no pavilhão da Paulinas Editora (17horas)  para o lançamento do livro "O Céu das Mães" do Paulo Kellerman

5.27.2014

azul às cores



O dia em que os lápis desistiram é o mais recente livro de Oliver Jeffers traduzido para português e como tem sido hábito pela Orfeu Negro sob a chancela Orfeu Mini.

Uma Orfeu Mini que nos tem enchido as medidas em cada uma das suas edições.

Confesso que encomendei para NÓS os últimos três livros da Orfeu e que nos têm acompanhado por estes dias.

É impossível olhar para um livro de Oliver Jeffers sem reconhecer alguns traços tão particulares deste ilustrador como o recurso ao lettering desenhado em que alterna caixas altas com caixas baixas.

Mas verdadeiramente surpreendente são as próprias narrativas.

no penúltimo livro incorri no risco dos meus lápis também dizerem BASTA!

mas permaneceram fieis até a este último.


"Um dia, na escola, quando ia buscar os lápis de cera, o Duarte encontrou um monte de cartas com o seu nome.
Todos os lápis decidiram escrever-lhe, reclamando: Basta!"

(...)
"Preciso de descansar!
O teu amigo estafado, 
lápis VERMELHO"

por aqui também tenho um nesse estado, mas parece que não há um vermelho como o dele ou simplesmente adaptou-se à minha mão.

(...)
"Se não começares a pintar dentro das linhas... vou mesmo perder a paciência.
O teu amigo certinho, 
Lápis Roxo."

é uma das cores que ainda permanece na sua quase forma original.

"O teu amigo completamente esgotado,
lápis cinzento"


por aqui o lápis preto é usado em todo o seu esplendor...

(...) "o teu amigo feliz, lápis verde"

e a minha relação estranha com os verdes.

ou mesmo com a gama de azuis e que me faz lembrar uma frase dita pelo M. ainda muito pequeno em que me pediu para pintar com azul às cores referindo-se a toda a sua gama.

e há os rosas...


e a lembrança de um tempo em que me escrevias cartas todos os dias


a reprodução tanto de textos como de ilustrações não foi feita na integra

3.25.2014

gerações e uma menina que vem contrariar a tendência

não acredito em coincidências. acredito que há pessoas que nos são próximas, não por serem amigas, mas porque partilhamos de gostos e interesses, porque estamos atentos ao que se passa à nossa volta e não temos medo de elogiar os outros.

no fim de fevereiro escrevia este post e a fotografia da quinoa e do amaranto tinha um segundo propósito, poder falar do livro Mar de André Letria, até porque já tinha escrito para a página infantil do DA.
os pequenos grãos traziam-me a recordação do mar. do meu. poucos dias depois os Hipopómatos falavam dele. recuei.

hoje repetimos o tema. e avancei.

primeiro porque a Catarina Sobral merece o elogio de ter sido a única ilustradora portuguesa a estar na grande feira de Bolonha. a Catarina faz parte de um número reduzido de ilustradores-autores e "O Meu Avô" foi o motivo para a sua presença em Bolonha.

segundo porque não tenho a doce recordação dos avós.

morreu-me uma avó tinha eu 17 anos. chorei-a, mas não era minha. uma avó emprestada, mas de tanto que era dada, também era minha.

morreu-me uma avó aos 11 anos. não fui capaz de a chorar e era minha.
uma distância do corpo de dentro e de fora não permitiram os olhos nem o coração de se lavarem.

foi a única avó que conheci. e pouco.
tenho pena de não ter histórias doces para contar.

tenho pena do M. só ter conhecido dois dos seus avós e em idades que não lhes permite grandes cumplicidades.


a narrativa começa com duas personagens distintas, o avô e o Dr. Sebastião, em tudo até no jogo cromático.

aos poucos as diferenças diluem-se, mesmo quando se fala do avô e quem aparece é o Dr. Sebastião.

Catarina habituou-nos nos primeiros livros a este jogo de invocação a grandes mestres das artes.

como a Édouard Manet. "Faz vários piqueniques na relva, durante a semana... comme il faut"

Le Déjeuner sur l'herbe

Almada e Fernando Pessoa também não são esquecidos.

"O meu avô escreve ridículas cartas de amor... durante horas a fio"

"Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas", o conhecido poema de Álvaro de Campos a Ofélia, a quem pediu que nunca revelasse a sua relação.
sobre a relação, Ofélia apenas disse que morreu quando Pessoa partiu.

ou o quadro de Almada recentemente exposto no âmbito da exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo"


e ainda a Andy Warhol com o seu pug e a referência a grandes celebridades fotografadas com os seu cães.

se o meu tempo, nem do M voou na companhia dos nossos avós, a bebé que aí vem quebra o ciclo desta família em que gerações se confundem.

a C. vai ter avós e bisavós, tios e tias-avós, tios pouco mais velhos do que ela e primos. todos eles capazes de fazê-la perder o tempo.

estamos à tua espera.

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