3.30.2014

e a vida vai correndo

um novo livro tem-me absorvido mais do que os dias o coração.

não é um tema fácil e por isso precisei de tempo para interiorizar a história e perceber como seria a minha abordagem.

para mim o papel de ilustrador é ao contrário da ideia de muitos escritores um mero executante.

é por isso que os livros passaram a ter a designação de co-autores.

não desvirtuamos o texto, mas temos o dever de dar ao leitor uma segunda leitura longe do texto.

quando o leitor, criança ou adulto consegue ler uma narrativa na imagem sei que o papel de ilustrador foi cumprido.

talvez por isto tenha recusado sempre fazer ilustrações para manuais escolares.

agora que sinto a mão deste novo menino, começamos a dar os primeiros passos lado a lado.

e a mesa de trabalho ganhou novos e lindíssimos papéis.

enquanto este começa vão saindo outras ilustrações por outros sítios.

e se a minha mesa se encheu de flores o mesmo posso dizer do espaço lá fora que nos tem presenteado com outras flores e sabores igualmente deliciosos.



3.25.2014

gerações e uma menina que vem contrariar a tendência

não acredito em coincidências. acredito que há pessoas que nos são próximas, não por serem amigas, mas porque partilhamos de gostos e interesses, porque estamos atentos ao que se passa à nossa volta e não temos medo de elogiar os outros.

no fim de fevereiro escrevia este post e a fotografia da quinoa e do amaranto tinha um segundo propósito, poder falar do livro Mar de André Letria, até porque já tinha escrito para a página infantil do DA.
os pequenos grãos traziam-me a recordação do mar. do meu. poucos dias depois os Hipopómatos falavam dele. recuei.

hoje repetimos o tema. e avancei.

primeiro porque a Catarina Sobral merece o elogio de ter sido a única ilustradora portuguesa a estar na grande feira de Bolonha. a Catarina faz parte de um número reduzido de ilustradores-autores e "O Meu Avô" foi o motivo para a sua presença em Bolonha.

segundo porque não tenho a doce recordação dos avós.

morreu-me uma avó tinha eu 17 anos. chorei-a, mas não era minha. uma avó emprestada, mas de tanto que era dada, também era minha.

morreu-me uma avó aos 11 anos. não fui capaz de a chorar e era minha.
uma distância do corpo de dentro e de fora não permitiram os olhos nem o coração de se lavarem.

foi a única avó que conheci. e pouco.
tenho pena de não ter histórias doces para contar.

tenho pena do M. só ter conhecido dois dos seus avós e em idades que não lhes permite grandes cumplicidades.


a narrativa começa com duas personagens distintas, o avô e o Dr. Sebastião, em tudo até no jogo cromático.

aos poucos as diferenças diluem-se, mesmo quando se fala do avô e quem aparece é o Dr. Sebastião.

Catarina habituou-nos nos primeiros livros a este jogo de invocação a grandes mestres das artes.

como a Édouard Manet. "Faz vários piqueniques na relva, durante a semana... comme il faut"

Le Déjeuner sur l'herbe

Almada e Fernando Pessoa também não são esquecidos.

"O meu avô escreve ridículas cartas de amor... durante horas a fio"

"Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas", o conhecido poema de Álvaro de Campos a Ofélia, a quem pediu que nunca revelasse a sua relação.
sobre a relação, Ofélia apenas disse que morreu quando Pessoa partiu.

ou o quadro de Almada recentemente exposto no âmbito da exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo"


e ainda a Andy Warhol com o seu pug e a referência a grandes celebridades fotografadas com os seu cães.

se o meu tempo, nem do M voou na companhia dos nossos avós, a bebé que aí vem quebra o ciclo desta família em que gerações se confundem.

a C. vai ter avós e bisavós, tios e tias-avós, tios pouco mais velhos do que ela e primos. todos eles capazes de fazê-la perder o tempo.

estamos à tua espera.

3.21.2014

21 de março

"Fiquei à janela a ver a noite
deitar os pássaros no ninho."

Afonso Cruz, O Livro do Ano

e ainda do Afonso

"O António que vive numa casa debaixo de uma árvore, 
completamente ao contrário dos ninhos que ficam em cima,
disse-me:
As asas são as pétalas dos pássaros. 
Um gaio explicou-lhe isso muito bem, mesmo muito bem:
Um pássaro a voar é um arbusto em flor.
E um pássaro branco, que voava por entre os meus pensamentos, acrescentou:
O vento é um voo sem pássaro." 

Os pássaros
 (dos poemas voam mais alto)

uma edição da Apcc

é bom ter amigos assim

em modo floral

excesso de trabalho afasta-me do teclado. os mails, e as poucas idas à internet são feitas via telefone.

o cansaço tem o seu lado positivo. faz-nos abrandar e devolve-me ao tapete que eu mais gosto.

o pouco tempo que sobra é realmente aproveitado para as coisas que me sabem bem.

e a primavera chegou, e com ela trouxe botões nas gardénias, nas begónias e timidamente apareceram dois morangos.

e porque acho que as meninas são dos pais, a filha encheu-lhe as mãos de flores amarelas.

para tudo há um tempo e a natureza encarrega-se de cumprir os seus ciclos, mas há que aprender o ritmo de cada coisa. 

e esta semana teve um sabor especial. ao fim de quase dois meses de trabalho com um grupo de crianças um dos meninos surpreendeu-me com a sua mãe

3.16.2014

green

sim estão na moda. e é fácil encontrá-los em tags como #smoothies, #detox.
há milhares de blogs a falarem sobre o assunto com centenas de receitas possíveis.

não, não passei a beber porque estão na moda.
quem me conhece sabe que há muito a alimentação é uma preocupação na minha vida.

não se prende a dietas muito pelo contrário. faço asneiras, sim. mais do que gostaria, mas procuro compensá-las todos os dias.

obrigada Julieta pelo movimento em que te empenhaste, mais fácil do que este "A portrait of my children, once a week, every week in 2014"

ao fim de 13 anos a viver paredes meias com o campo contam-se pelos dedos das mãos as caminhadas que fiz por estes terrenos.

o dia pedia um passeio e foi a nossa, estreia a apanhar espargos.

impunha-se perceber como era a planta-mãe. depois foi o olhar atento (meu e do M.) de quem o fazia pela primeira vez.


e não se comparam com a última braçada que nos ofereceram.

mas ontem tiveram outro sabor.

para o M. contou a experiência e a vontade de ser ele a preparar um jantar.

mergulhou no livro de Maria Antónia Goes, e porque a falta de tempo assim o obriga ficam prometidos ovos mexidos com espargos para o jantar de terça feira.

- Mãeeeee temos ovos?
- Sim,
(ida dele ao frigorífico)
- Só temos 6 e a receita diz 6 a 8 ovos.
- Se for preciso compramos mais, mas chega.

- Mãeeeee temos dois dentes de alho picados?
- Sim temos alhos.
- Mas picados?
- Não, picam-se na altura.

-  Mãeeeee temos bom azeite?
é que aqui diz que tem de ser um bom azeite.
- Manuel por enquanto ainda vivemos no Alentejo...

e há dias assim longe de quatro paredes, de exposições, de livros.

porque também fazem bem.

3.14.2014

o tempo morno traz com ele a cor

cozinhar para mim é quase um acto de reflexão. não na comida em si, mas em tudo o que a envolve e dou por mim a olhar para a taça e achar que podia ser uma pintura.

por momentos lembrei-me de Tàpies e das nossas inúmeras partilhas.
das conversas que tínhamos há quinze anos e que levavam uma noite.

às vezes lembro-me de ti e sinto saudades.

como prometido a receita está no 220º.

 
dia 1 | porque não consegui desfazer-me desta caixa de ovos e passou literalmente a incubadora.

sim tenho de me agarrar ao novo livro

3.13.2014

como no trapézio

eu saltito de tema, mas dou por mim sempre com a necessidade de acrescentar mais a determinados posts.

já tinha dito que aquilo que mais gostei na Ilustrarte deste ano foi a exposição de Chiara Carrer. gosto do trabalho dela. extremamente plástica.
é bom continuar a encontrar gente que gosta de sujar as mãos.

de toda a exposição, saltaram muitos livros para a minha lista, houve um que teve um particular impacto. não pelo traço que é magnífico, mas pelo tema que sempre gerou em mim uma dualidade de sentimentos.

nunca me imaginei como saltimbanco. preciso de criar raízes para a minha sobrevivência.

mas gosto das personagens e das histórias que cada uma carrega.

não gosto de ir ao circo. em boa verdade fui duas vezes.

a primeira não conta porque era uma miúda tia de 12 ou 13 anos que lhe confiaram o sobrinho de 7 ou 8 em pleno Campo Pequeno. (nos dias de hoje acho que era impensável)

dessa ida só me lembro de duas coisas o medo de perder o miúdo de vista e dos leões que teimavam em usar a arena como um bacio gigante.

chegou para mim. disse nunca mais.

aprendi anos depois que nunca digas nunca.



e lá estava eu com o M. num circo não o Chen, mas num circo de província.

sim foi o espectáculo mais deprimente que vi em toda a minha vida.

os leões não fizeram cocó na arena, porque não havia leões.

os leões foram substituídos por 6 caniches de cor incerta de tão sujos que estavam.

não havia meninas no trapézio, nem malabaristas ágeis. havia dois ou três personagens que alternavam os números entre si.


sinto-me a quarta personagem, da terceira fila a contar da esquerda para a direita.

chegou para mim. voltei a dizer nunca mais.

para mim circo é o grande livro de David Toscana, Santa Maria do Circo.

para mim circo são estes objectos

e não podia esquecer-me do vídeo dos The Soaked lamb de que faz parte o meu amigo Afonso, Palhaços.


3.11.2014

a barriga mexe connosco

achei sempre que as minhas outras mães eram exageradas em relação aos filhos e, entenda-se o exagerado não por serem permissivas face a alguma exigência dos pequenos, mas exageradas de coração.

depois de ter sido mãe percebi finalmente esse exagero. a minha determinação foi abalada e substituída pela ponderação. deixei de fazer algumas coisas de que gostava em prol do bem estar do M.

agora com ele "ligeiramente" mais crescido começo a cortar aos poucos o nosso cordão umbilical, e se é verdade que assuntos como a morte não me assolavam, hoje, dou por mim a pensar e se...

deixei de fumar há uns bons anos porque decidi que queria vê-lo crescer, como se isso fosse suficiente para enganar a Morte.


"O Comboio" da francesa Silvia Santirosi, é um livro com uma narrativa poética que retrata a falta de uma mãe e como aquela criança luta diariamente com essa perda.

com as magnificas ilustrações de Chiara Carrer, a ilustradora convidada para a Ilustrarte deste ano, dão a doçura e a leveza do peso da história.

pensei que já tinha falado neste livro, porque há muito que desejei tê-lo.

"Com a mão, minha filha,
assinalas um ponto luminoso.
Descobriste uma nova estrela."

"Já tinhas acordado
e contavas-me num murmúrio
que todas as noites sonhas a mesma coisa."

o traço simples, mas marcante de Carrer revolve-nos o estômago.

tenho pena de não ver mais livros assim editados em Portugal, por editoras portugesas.

"...Estou sozinha e não sei como chegar à estação.
Então desato a correr.
E corro, corro, corro,
arrastando uma enorme mala branca."

"Quando te perguntei o que trazias lá dentro, olhaste para mim.

-Que estranhas são, às vezes, as perguntas dos adultos! (...)"


(...)

"Era outubro
e tiritavas de frio.
Então dei-te a tua camisola favorita,
a verde,
a que a tua mãe usava
quando tu ainda não conhecias o mundo.
Eras muito pequena
e a tua casa era a barriga dela. (...)"

"-Como continuas o sonho? - perguntei-te.

E olhaste de novo para mim muito séria,
porque, às vezes,
as perguntas não servem.
Há que esperar. (...)"

e todas as noites ali fica a acenar com o bilhete na mão, mas a ver o comboio partir e a desaparecer numa curva

"Nesse momento,
sempre no mesmo momento do sonho,
dizes-me que acordas.

- O que significa, papá? - perguntas-me,
enquanto te encolhes
na tua camisola grande.


"Como explicar-te
que as pessoas de quem gostamos
morrem, deixam-nos e partem?
Como explicar-te
que o amor e a alegria fazem parte da vida
tal como a dor e a tristeza?
Que há vermelho, verde, amarelo...
mas que também há negro? (...)

a narrativa continua com o pai a contar-lhe a história de um homem cego que quis saber como era o branco.
o vizinho disse-lhe que o branco era a cor do leite.

para o cego o branco passou a ser "quente e fumegante como o leite que tomas antes de adormecer"

mas não...

o vizinho voltou a dizer que o branco é a farinha de trigo

e o cego percebeu que o branco era leve e macio, como o tato da farinha entre os dedos.

mas não...

não percebeste, o branco é a cor da neve.

e novamente o cego disse que o branco era frio e húmido e fazia ruídos ao pisar.

o vizinho não se sentia capaz de lhe explicar como era o branco, o branco era aquilo tudo, mas não era o Branco.

porém o cego pela primeira vez soube que "no seu sonho vira o branco"


(...)
"Era tarde.
Bocejaste, minha filha.
Olhaste para mim e disseste:
- Vamos dormir?

"Fechei a janela e levei-te para a cama.
Dei-te um beijo na testa,
como a tua mãe fazia sempre,
e fiquei ao teu lado até adormeceres.

(...)
no dia seguinte finalmente apanhaste o comboio

e agora percebes que a estrela que vês todas as noites, a tua estrela, "não retira escuridão à tua noite, mas estará sempre aí. (...)


não era para ter falado deste livro de Chiara Carrer, mas acabei por fazer por dois motivos. o primeiro porque pensei que o tinha trazido para aqui e não o fiz, e senti que era importante fazê-lo. o segundo e talvez o mais importante é que o próximo livro em que vou mergulhar de coração, aborda o mesmo tema.

da Chiara Carrer existem vários livros que constam na minha wishlist e depois da exposição que vimos gostava de falar num em particular.

este livro não foi reproduzido na integra

3.09.2014

trendy

um sábado calmo devolveu-me à cozinha e a algumas experiências. entre tigelas e colheres de pau dei por mim a olhar para a embalagem dos ovos e pensar que até os distribuidores estão up-to-date.

a memória é capaz de nos surpreender a cada instante.

desde 2000 que a Pantone escolhe uma cor para cada ano e apesar de ter anunciado logo no inicio de janeiro, foi a olhar para uma caixa de ovos que a cor se avivou.

18-3224 Orquídea Radiante é a cor de 2014.
segundo Leatrice Eiseman, directora executiva do Pantone Color Institute, a orquídea radiante emana alegria, amor e saúde.

acredito que será a minha cor este ano.

apesar do Manuel continuar a desejar-me todas as noites sonhos cor-de-rosa, sei que para ele continuarei a ter de desejar um Pantone DS 245-3C

a caixa de ovos super trendy serviu para um bolo de limão com sementes de papoila e que em breve colocarei a receita no 220º

3.07.2014

coração tranquilo

com o último livro acabado regresso a alguns trabalhos, como a KORA.

o Jorge está de parabéns pois o documentário foi seleccionado para o festival de cinema de antropologia, em Lisboa.

acabo outras ilustrações para um outro trabalho.

e começo um novo livro com texto do Paulo Kellerman.

as segundas feiras de ateliês passaram a ser também quartas e tudo isto só é possível se mantiver o coração na dose certa de tranquilidade.

se sobra tempo?

só para o que é realmente importante

3.06.2014

ida a casa e ilustrarte 2014

desde o início da Ilustrarte que nós marcamos presença. uma forma de descobrir o que de bom se faz lá fora.

confesso que tenho alguma pena de ver poucos ilustradores portugueses tratando-se de uma iniciativa "nossa".

ao contrário do ano passado, o espaço que tinha tudo para ser feliz, revelou-se muito frio.

enormes blocos de esponja têm sido ao longo dos dias como que ratados. (espero que por mãos pequeninas)

um jogo de formas cria uma dinâmica e o próprio material convida de facto à permanência sobretudo nos blocos mais baixos, mas é apenas um jogo de formas, pois a intenção não é a de sentar, obrigando a estar em algumas situações em posições um pouco incómodas.

do que mais gostámos ficou


o trabalho da alemã Johanna Benz e vencedora do prémio Ilustrarte'14

as duas menções especiais

Urszula Palusinska da Polónia.



o argentino Diego Bianki, com o livro "Rompecabezas"

os meus sentidos perderam-se no traço da italiana Vitoria Niccolai.


outra italiana, Elisa Talentino.



na memória ficam ainda nomes como Whooli Chen (República da China), Carmela Mayor (Espanha), Renata Bueno (Brasil),  Narges Mohammadi (Irão), Satoe Tone (Itália), Claire Le Gal (França) e a dupla suíça.

um futuro post dedicado à artista convidada Chiara Carrer

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