1.31.2014

nem tudo é trabalho

acredito que depois da tempestade vêm tempos bons. os dias saltitam entre viagens para ateliês e viagens para um monte infindável de papéis, tesouras e cola.

faço uma ginástica para tapar todos os buracos, sei que não consigo. tenho mails atrasados. trabalhados pendurados, que espero colocar em ordem rapidamente.

deixei para trás o ritual dos sábados de manhã na feira de Estremoz, que funcionava como um bálsamo para a alma e para o estômago.

nesta permanência pelo Alentejo, e ao contrário de alguns amigos, não me aventurei pelas hortícolas. Cultivei um canto de aromáticas, até ao dia em que chegou um cão a casa.

o que gosto dos mercados são os cheiros, a cor, poder trocar saberes, que no meu caso é mais absorver. ter um cabaz à porta era uma ideia que só satisfazia o meu lado burguês.
veio o primeiro, numa caixa de cartão com uma apresentação irrepreensível. sempre que olhava, e ainda sem saber o que continha,  era assaltada por este livro de Antoinette Portis

Não é uma caixa! são mimos escolhidos a dedo.
hoje chegou a segunda caixa. mudaram cores e sabores.

A Vale do Mestre está de parabéns, tanto que fiz questão em falar com eles.



e porque nem tudo é trabalho, uma noite que juntou muitas coisas boas. e uma agradável surpresa, o Vale do Mestre no Descobre.

1.30.2014

conforto

definitivamente instalei-me na cozinha e, como em tudo, tem o seu lado bom e o menos bom.

tenho contrariado a vontade de andar sempre a depenicar alguma coisa, vingando-me nos chás.

finalmente trouxe o Largo para casa, alternando com chá verde.

do último dia de ateliê veio este novo chá, de gengibre, zimbro, hibisco, escaramujo e flores de centaurea.

apreciar cada sabor como que se se pudessem mastigar.

a isto junta-se uma boa companhia pronta para estas aventuras que nos tiram para lá do conhecido.


por vezes caminhamos para o confortável. a mudança causa desconforto, provoca medo, mas qual é a graça do conforto.

se gostássemos mesmo de conforto, não tínhamos saído da barriga da nossa mãe, temos comida, água, proteção. temos tudo. mas não, chega a hora e nascemos, com vontades, desejos e é essa a força que nos move.

é essa a força que me conforta todos os dias, o desejo de mudar.

22 são as ilustrações prontas e o final do prazo precipita-se.

1.25.2014

dias contados

a contar os dias. os minutos. os segundos. na boca fica o sabor amargo de quem não conseguiu cumprir tudo a que se propôs fazer no dia anterior.

a fazer o que gosto não me sobra tempo para outras tantas coisas de que preciso e também gosto.

conto o meu tempo e o do M., que em troca de tantos trabalhos de casa, também lhe apeteceria fazer outras coisas como brincar.

há dias em que o teu colo é mais preciso.

e há corações que teimam em aparecer

1.21.2014

delícias maiores

sexta, sábado e domingo foram dias com uma carga emocional demasiado excessiva.

o trabalho das duas últimas semanas teve de ser refeito por uma falha de comunicação a que eu também atribuo culpas a mim. evito falar ao telefone. não gosto. que isto me sirva de lição.

chorei de desilusão, de confusão, de cansaço. chorei de alegria.

vou ser tia-avó.

vários foram os posts em que refiro à diferença de idades entre mim e os meus irmãos. irmãos-pais, que hoje além de manterem esse estatuto são também os meus melhores amigos.

companheiro de brincadeiras, o sobrinho mais velho vai ser pai.

inevitavelmente colocamos o percurso da vida em filme, e um novo ciclo começa.

com a maioria das ilustrações refeitas, confesso que ganharam com as alterações. há um relógio que não pára e eu começo a sentir-me pressionada.
não estou a cem por cento dedicada ao livro. o tempo além de muitas outras coisas é dividido com o inicio de alguns ateliês.

trabalhar com idosos não é fácil.

a experiência e os anos conferem-lhes um poder que as crianças não têm, no entanto são capazes de se utilizar das manhas dos mais pequenos.

trabalhar com idosos não é fácil, mas estou a gostar.

são lindas estas mulheres que chegam à Baixa todas as segundas feiras. entre um rabisco e um não sei fazer há beijos nas testas que a mim me sabem bem.

e depois há surpresas assim. que nos enchem a alma


1.12.2014

do que sou

as últimas duas semanas tiveram reuniões a mais para o meu gosto, apesar de terem uma componente que me agrada, curtas, sem floreados.

com alguns tempos de espera tenho permanecido no Largo e feito do chá da casa o meu companheiro. (canela, limão, cardomomo, anis estrelado, cravinho e gengibre)

uma das reuniões levou-me a Alfama,

enquanto fazia tempo para a hora marcada, entrei numa antiga mercearia que anunciava chás e cafés.

chá era a palavra mágica. sim eu deixei de beber leite há algum tempo e tenho tido o chá por companhia. os iogurtes já são de soja e recentemente a manteiga passou a ser de origem vegetal.



na tentativa de reproduzir o sabor do Largo perdi-me nos chás, mas a melhor descoberta foi a alfazema.

para quem comigo anda sabe as vezes que entrei em lojas bio, gourmets e afins à procura de alfazema.

sim alfazema
não, não é para afugentar as traças.

é mesmo de gula. tenho uma mão cheia de receitas que levam alfazema, permitindo-me até há pouco apenas sonhar com elas.

faz-se planos para o fim de semana, bolachas de limão e alfazema e trabalho num novo livro, e alteram-se, e ainda bem.



gosto da companhia destes amigos. fala-se de bom.

o carlos percebeu a minha natureza, ou pelo menos naquilo que gostava de fazer que é deixar de comer carne. não é fundamentalismo. não é querer ser outra pessoa.

passei a fronteira de estar enjoada de carne. vem de dentro e o estômago fala mais alto.

o Manel também já se queixa da carne. o meu coração sorriu e aproveitei a deixa para sugerir adoptarmos uma vida mais vegetariana, que foi contraposta por uma mais "peixariana"

vegetariana ou "peixariana", mas habituado a comer chia na sopa, linhaça nos iogurtes, rendeu-se também às minhas bolachas de sementes.

estamos no bom caminho

do trabalho ficam a faltar 29 ilustrações, capa e guardas

ainda não é de alfazema, mas está a dar-me imenso gozo.

as bolachas de sementes são da Miolo, padaria biológica artesanal 

1.09.2014

há vida na sombra

todos os anos procuro fugir dos centros comerciais em época de Natal e apesar de não ter conseguido a cem por cento, muitos dos presentes foram comprados na nova Vida Portuguesa.

confesso que gosto bastante mais deste espaço. a loja não tem o cheiro das paredes salitrosas da loja do Chiado.

respira-se, é lindíssima e está na nova zona de Lisboa onde apetece estar.

no meio dos presentes a amigos, decidimos presentear-nos com este e um outro livro. não, por não o encontrarmos num outro sítio, mas porque estava ali e já o namorávamos.

Marta Monteiro estreou-se com o seu primeiro livro na Pato Lógico e revelou-se em Sombras uma ilustradora que está em todo lado menos na sombra.

num ritmo quase cinematográfico, somos levados para um universo que muitas vezes toca a esfera poética, como somos empurrados para um humor de quem vê a vida tal qual ela é.

muitos são os livros que ficam pela estante sem sequer aparecer aqui, na maioria das vezes por falta de tempo.

ontem e porque o trabalho apertava mais do que o normal e dei por mim a fazer diversas coisas ao mesmo tempo, houve quem se oferecesse para me ajudar.

por tua causa lembrei-me deste livro.

por tua causa imaginava mãos na sombra capazes de me ajudar e que ao mesmo tempo davam o conforto de um colo.

Sombras é um livro para explorar com calma, para degustar cada pormenor, cada mensagem que se esconde na sombra.

faz-nos pensar que a realidade vai além do que os olhos são capazes de apreender. há verdades escondidas que só os mais atentos ou os de coração mais livre podem descobrir.

e se a expressão varrer para baixo do tapete é uma realidade, neste universo quase surrealista leva-nos a acreditar que há tantas coisas que podemos simplesmente esconder porque não interessam nada.

com um torcicolo que está a tirar a minha paciência e o meu conforto para lá do aceitável, resta-me imaginar como gostava de estar rodeada de gente de sorrisos rasgasdos

1.06.2014

trabalho e uma casa nova



os últimos dias têm sido agarrados não ao estirador, mas à mesa da cozinha. primeiro por necessidade porque o meu atelier fica fora de casa e um mau isolamento de um terraço provocou umas quantas goteiras no tecto.

viver apaixonada por casas antigas, cheias de história e de estórias também tem o seu lado menos bom.

a nossa casa é do século XIX assentada em detalhes do século XIII e XIV.

o lado bom de me ter instalado na cozinha é porque tenho sempre a chaleira à mão.

de volta dos papeis a minha ligação ao mundo tem sido feito via telefone e o computador tem ficado esquecido. mas ao desenhar esta família trouxe-me à memória esta outra família, esta outra casa e esta revista que tanto gosto.



com o meu trabalho cada vez mais em Lisboa, o regresso a casa torna-se cada vez mais real.

o M. pede uma casa nova de paredes brancas.

de paredes brancas, mas enamorada por estes móveis.

a ilustração final mostrarei quando a revista Pais e Filhos sair.

de coração



a M. fez um ano e é filha de uma geração que está entre mim e os pais dela.

a M. é prova que o tempo corre, que se nasce, que se cresce, que se muda.
de gostos, de vontades.
amigos que se perdem e outros que se ganham.

a M. é sem dúvida prova que há amizades para a vida.

obrigada Ana e João


1.02.2014

mãe é casa


 

já tinha falado deste livro aqui e apesar de não ter sido um presente de Natal nós fizemos com que fosse.

há uns dias que o passeamos pela casa porque sabe bem tocar nas imagens e o cheiro ainda não se confunde com os de outras tantas páginas.

as ilustrações transportam-nos no tempo.

"mãe é casa redonda, macia e andante."

consciente da decisão não frequentei aulas pré-parto, não andei a mudar fraldas a bonecos, já o tinha feito em pequena, mas li, li muito e esperei que a natureza cumprisse a sua função.

"Pôs-me neste mundo,
nu, pequeno e terno"

a tua natureza apressada fez-te nascer às 38 semanas, com 3,400kg, 51 cm e duas horas de parto.

por decisão minha não levei epidural. doeu. sim, muito, mas no minuto a seguir a dor desapareceu e deu lugar à contemplação.

às vezes pergunto-me num tom pequenino, se tivesse levado 10 e 12 horas de parto se teria mantido a mesma decisão.


"dá-me o seu peito de leite materno"

 

e orgulhosa de ter abraçado este projecto

e por falar em contemplação este grande projecto da fotógrafa Jenny Lewis, one day young



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