3.25.2014

gerações e uma menina que vem contrariar a tendência

não acredito em coincidências. acredito que há pessoas que nos são próximas, não por serem amigas, mas porque partilhamos de gostos e interesses, porque estamos atentos ao que se passa à nossa volta e não temos medo de elogiar os outros.

no fim de fevereiro escrevia este post e a fotografia da quinoa e do amaranto tinha um segundo propósito, poder falar do livro Mar de André Letria, até porque já tinha escrito para a página infantil do DA.
os pequenos grãos traziam-me a recordação do mar. do meu. poucos dias depois os Hipopómatos falavam dele. recuei.

hoje repetimos o tema. e avancei.

primeiro porque a Catarina Sobral merece o elogio de ter sido a única ilustradora portuguesa a estar na grande feira de Bolonha. a Catarina faz parte de um número reduzido de ilustradores-autores e "O Meu Avô" foi o motivo para a sua presença em Bolonha.

segundo porque não tenho a doce recordação dos avós.

morreu-me uma avó tinha eu 17 anos. chorei-a, mas não era minha. uma avó emprestada, mas de tanto que era dada, também era minha.

morreu-me uma avó aos 11 anos. não fui capaz de a chorar e era minha.
uma distância do corpo de dentro e de fora não permitiram os olhos nem o coração de se lavarem.

foi a única avó que conheci. e pouco.
tenho pena de não ter histórias doces para contar.

tenho pena do M. só ter conhecido dois dos seus avós e em idades que não lhes permite grandes cumplicidades.


a narrativa começa com duas personagens distintas, o avô e o Dr. Sebastião, em tudo até no jogo cromático.

aos poucos as diferenças diluem-se, mesmo quando se fala do avô e quem aparece é o Dr. Sebastião.

Catarina habituou-nos nos primeiros livros a este jogo de invocação a grandes mestres das artes.

como a Édouard Manet. "Faz vários piqueniques na relva, durante a semana... comme il faut"

Le Déjeuner sur l'herbe

Almada e Fernando Pessoa também não são esquecidos.

"O meu avô escreve ridículas cartas de amor... durante horas a fio"

"Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas", o conhecido poema de Álvaro de Campos a Ofélia, a quem pediu que nunca revelasse a sua relação.
sobre a relação, Ofélia apenas disse que morreu quando Pessoa partiu.

ou o quadro de Almada recentemente exposto no âmbito da exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo"


e ainda a Andy Warhol com o seu pug e a referência a grandes celebridades fotografadas com os seu cães.

se o meu tempo, nem do M voou na companhia dos nossos avós, a bebé que aí vem quebra o ciclo desta família em que gerações se confundem.

a C. vai ter avós e bisavós, tios e tias-avós, tios pouco mais velhos do que ela e primos. todos eles capazes de fazê-la perder o tempo.

estamos à tua espera.

3 comentários:

  1. :) OH Rute não sei se percebi bem... estás grávida??? Adoro ler tudo o que escreves e visito o teu blog diariamente, mesmo qd não deixo comentário... :) Mas hoje fiquei com a pulga atrás da orelha ;)
    Beijinhos

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    Respostas
    1. Olá Juca em primeiro lugar obrigada pelas palavras e visitas. Tento na medida do possível encontrar elos de ligação entre as coisas que vou sugerindo e a minha-nossa vida, mesmo quando são coisas pesadas, que doem. Quanto a esta menina que vem a caminho não me importava que fosse minha, mas é uma sobrinha, o que em boa verdade é como se fosse filha. Hoje estava a comprar roupa para o Manuel e dei por mim a comprar para a bebé C :). Um beijo grande

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    2. Rute o teu blog é sem duvida uma fonte de inspiração com sabor caseiro e muito confortável... sabes? Aquelas palavras que por vezes são mesmo as que precisamos ler ou ouvir, nos momentos mais certos e sempre com ensinamentos e dicas... é assim que me sinto quando aqui venho... em casa!
      Quanto à menina... és como eu... sobrinhos são filhos... :D
      Beijinhos grandes

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