achei sempre que as minhas outras mães eram exageradas em relação aos filhos e, entenda-se o exagerado não por serem permissivas face a alguma exigência dos pequenos, mas exageradas de coração.
depois de ter sido mãe percebi finalmente esse exagero. a minha determinação foi abalada e substituída pela ponderação. deixei de fazer algumas coisas de que gostava em prol do bem estar do M.
agora com ele "ligeiramente" mais crescido começo a cortar aos poucos o nosso cordão umbilical, e se é verdade que assuntos como a morte não me assolavam, hoje, dou por mim a pensar e se...
deixei de fumar há uns bons anos porque decidi que queria vê-lo crescer, como se isso fosse suficiente para enganar a Morte.
"O Comboio" da francesa
Silvia Santirosi, é um livro com uma narrativa poética que retrata a falta de uma mãe e como aquela criança luta diariamente com essa perda.
com as magnificas ilustrações de
Chiara Carrer, a ilustradora convidada para a Ilustrarte deste ano, dão a doçura e a leveza do peso da história.
pensei que já tinha falado neste livro, porque
há muito que desejei tê-lo.
"Com a mão, minha filha,
assinalas um ponto luminoso.
Descobriste uma nova estrela."
"Já tinhas acordado
e contavas-me num murmúrio
que todas as noites sonhas a mesma coisa."
o traço simples, mas marcante de Carrer revolve-nos o estômago.
tenho pena de não ver mais livros assim editados em Portugal, por editoras portugesas.
"...Estou sozinha e não sei como chegar à estação.
Então desato a correr.
E corro, corro, corro,
arrastando uma enorme mala branca."
"Quando te perguntei o que trazias lá dentro, olhaste para mim.
-Que estranhas são, às vezes, as perguntas dos adultos! (...)"
(...)
"Era outubro
e tiritavas de frio.
Então dei-te a tua camisola favorita,
a verde,
a que a tua mãe usava
quando tu ainda não conhecias o mundo.
Eras muito pequena
e a tua casa era a barriga dela. (...)"
"-Como continuas o sonho? - perguntei-te.
E olhaste de novo para mim muito séria,
porque, às vezes,
as perguntas não servem.
Há que esperar. (...)"
e todas as noites ali fica a acenar com o bilhete na mão, mas a ver o comboio partir e a desaparecer numa curva
"Nesse momento,
sempre no mesmo momento do sonho,
dizes-me que acordas.
- O que significa, papá? - perguntas-me,
enquanto te encolhes
na tua camisola grande.
"Como explicar-te
que as pessoas de quem gostamos
morrem, deixam-nos e partem?
Como explicar-te
que o amor e a alegria fazem parte da vida
tal como a dor e a tristeza?
Que há vermelho, verde, amarelo...
mas que também há negro? (...)
a narrativa continua com o pai a contar-lhe a história de um homem cego que quis saber como era o branco.
o vizinho disse-lhe que o branco era a cor do leite.
para o cego o branco passou a ser "quente e fumegante como o leite que tomas antes de adormecer"
mas não...
o vizinho voltou a dizer que o branco é a farinha de trigo
e o cego percebeu que o branco era leve e macio, como o tato da farinha entre os dedos.
mas não...
não percebeste, o branco é a cor da neve.
e novamente o cego disse que o branco era frio e húmido e fazia ruídos ao pisar.
o vizinho não se sentia capaz de lhe explicar como era o branco, o branco era aquilo tudo, mas não era o Branco.
porém o cego pela primeira vez soube que "no seu sonho vira o branco"
(...)
"Era tarde.
Bocejaste, minha filha.
Olhaste para mim e disseste:
- Vamos dormir?
"Fechei a janela e levei-te para a cama.
Dei-te um beijo na testa,
como a tua mãe fazia sempre,
e fiquei ao teu lado até adormeceres.
(...)
no dia seguinte finalmente apanhaste o comboio
e agora percebes que a estrela que vês todas as noites, a tua estrela, "não retira escuridão à tua noite, mas estará sempre aí. (...)
não era para ter falado deste livro de Chiara Carrer, mas acabei por fazer por dois motivos. o primeiro porque pensei que o tinha trazido para aqui e não o fiz, e senti que era importante fazê-lo. o segundo e talvez o mais importante é que o
próximo livro em que vou mergulhar de coração, aborda o mesmo tema.
da Chiara Carrer existem vários livros que constam na minha
wishlist e depois da exposição que vimos gostava de falar num em particular.
este livro não foi reproduzido na integra