2.22.2014

de papa

o último mês e meio foi passado literalmente à mesa e como diria José Quitério que bem que sabe o "amesentar".

não, não vem no dicionário, mas foi ele que a inventou e não encontro palavra melhor para definir o prazer de juntar quem nos é querido à mesa, à roda de sabores e de histórias.

amesentei-me por mês e meio e fiz comigo jogos matemáticos para enganar a mente e não perceber que tinha tão pouco tempo para produzir 68 ilustrações (64 + capa e guardas).

comecei por contar as que tinha e aos poucos o número foi crescendo.
arranjei um novo jogo. haviam as duplas temáticas e cinco soltas e nessa altura passaram a ser uma equação (x+5). quando cheguei a uma fase em que senti algum conforto, permiti-me dizer que só já faltavam 25+5.
hoje posso dizer que faltam-me 5 ilustrações e ainda tenho três dias.

a mesa foi a mesma, apenas os pratos foram diferentes.

a trabalhar na quinta ilustração percebi que a mãe é feita de papa.

e apercebi-me da importância da palavra. a seguir ao leite materno (ou ao leite em pó para latentes), a papa é o primeiro alimento sólido a ser ingerido e começamos a amesentar-nos.

durante meses e atrevo-me a dizer anos perdi o meu cheiro. cheirava a papa. cheirava a toalhetes, a fraldas, a bolsados, mas de tudo o que retenho na memória é o cheiro doce da papa.

a papa do M. não tinha o cheiro da minha de infância. o ursinho azul que nasceu na minha geração, não guardava o cheiro do urso da geração do Manuel.

provavelmente o cheiro que retenho é o cheiro da minha mãe-papa.

a minha mãe-papa com todos os defeitos de um ser humano ensinou-me que o amor é que faz a vida valer a pena e que não devemos prender-nos a nada que não nos dê alegria.

houve um dia em que ela disse não. não quero viver mais contigo. porque já não havia amor, porque percebia que estava melhor sem ele.
os meus pais separaram-se quando eu tinha três anos. na verdade só deixaram de viver juntos porque nunca se divorciaram.
em todos esses anos o meu pai ia a casa quando queria. ia buscar-me à escola mais cedo sob a desculpa de uma ida ao médico. era o meu pai que ia comigo comprar sapatos, porque a minha mãe não aguentava as minhas indecisões.

não foi um pai presente. estava presente quando era chamado. mas a minha mãe nunca me afastou dele.

as mães-papas cuidam dos seus filhos e é o cheiro deles que está acima de tudo.

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