12.10.2012

onde o nosso coração está


quando nos mudámos para o Alentejo trazíamos na mala o romantismo de viver no campo. tudo era novo e invariavelmente apetecível por tudo o que de diferente despertava em nós. em todos os sentidos.
conheci o senhor M. porque precisei de umas prateleiras para um nicho que, por altura das obras, decidimos não destruir, como quase tudo.
não o conhecíamos. culpa nossa, porque não era um simples carpinteiro. Com a mestria de quem trata o material por tu, dava vida a peças que o destino já há muito tinha posto no lixo.
aceitou o trabalho, apenas e porque simpatizou connosco. ao fim de quase 12 anos lá estão elas sem um empeno, milimetricamente desenhadas para um espaço que de milimétrico apenas tem os poros.
com um humor peculiar, só se dava a quem queria. sabia o que fazia e fazia-o muito bem. não havia bicho que ali permanecesse por muito tempo. amigos que trazíamos de Lisboa frequentaram a casa deles, como amigos deles se se tratassem.
um dia o caruncho chegou-lhe a casa. sentiu-se mal. não era nada, mas era tudo. o corpo perdeu-se no cansaço. perdemo-lo porque ele o decidiu.
hoje ao levar o M. à escola cruzei-me com a mulher. mantemos alguns almoços. menos dos que gostaria.
naquela altura pensei que não iria aguentar. enganei-me. olho-a e penso que é preciso força para continuar e para mudar.
ao longe os sinos dobram e uma dada angustia apodera-se dos pensamentos. inquieta-me esta proximidade que ao mesmo tempo é tão distante.
há sítios que nos marcam de uma forma indelével, mas a nossa casa é, onde o nosso coração está.

12.06.2012

desembaraçar a mão


Em Março deste ano tivemos a possibilidade de passar 3 semanas entre Santos e São Paulo. confesso que ao aproximar-se o dia da viagem sentia-me inquieta. sou eu. não sei ser de outra maneira. sofro com a mudança. voltei a gostar e uma vez por outra com uma dada saudade. da gente. do clima.
naquele dia estivemos juntos de Niemeyer e somos esmagados. o nosso olhar é muito. tanto que a máquina não consegue apanhar. o nosso olho é vivo, como será sempre vivo quem o fez.
quem dizia que era preciso desembaraçar a mão, perdeu aos 104 anos, quando a vida decidiu desembaraçar-se dele

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