10.31.2012

tradição




Ao meu amigo João,

O melhor será começar pela palavra tradição, símbolo de memória, uso ou hábito. A tradição é a via pela qual os factos ou dogmas são transmitidos de geração em geração sem mais prova autêntica da sua veracidade que essa transmissão.
É verdade que as tradições traduzem a identidade de um povo e, se no dia 1 de Novembro de 1755, com o terramoto houve a necessidade de se pedir ajuda, sim, porque o “Pão por Deus”, não era mais que uma esmola para amenizar a perda de quem ficou sem nada.
Essa tradição manteve-se por Lisboa e arredores, primeiro recordando as vítimas desse dia, depois porque era tradição e já não se questionava a sua razão. Podemos perguntar que sentido fazia ser adoptada pelo resto do país? Por tradição?
Mais, eram as crianças a quem lhes era delegada a tarefa de pedir, e se recuarmos àquele dia, podemos imaginar que os adultos estariam mais ocupados em cuidar dos mortos, por isso o dia 1 de Novembro ser o Dia dos Finados, como arranjar lugar para dormir. Também era mais fácil sentir compaixão por aqueles meninos que acabavam por receber aquilo que havia, castanhas, maçãs, romãs. O que a terra dá por essas alturas.
Com o passar do tempo o “Pão por Deus” sofreu algumas alterações e os meninos passaram a receber doces e algum dinheiro.
Mas o que dizer do Halloween, que nos bateu à porta, sem qualquer tradição e numa onda consumista.
A palavra Halloween deriva da expressão “All hallow’s eve”, que significa a “véspera de todos os santos”. Abreviando “à má fila” a explicação que se impunha, mas que num próximo post irei fazer, as crianças batem às portas com a frase na boca “doçura ou travessura”. Cabe a quem dá escolher.


Mas na tradição portuguesa, com o seu propósito original desvirtuado, as crianças também pedem doçuras, mas com versos na boca,

"Bolinhos e bolinhos 
Para mim e para vós 
Para dar aos finados 
Qu'estão mortos, enterrados" 

"Pão, pão por deus à mangarola, 

encham-me o saco, 
e vou-me embora.” 

Cabe novamente a quem dá escolher.
“Olha foram-me os ratos ao pote e não me deixaram farelo nem farelote” 


Mais uma vez a travessura, mas que vinha em forma de verso, 

“O gorgulho gorgulhote, 
lhe dê no pote 
e lhe não deixe, 
farelo nem farelote.”


“Esta casa cheira a alho 
Aqui mora um espantalho 
Esta casa cheira a unto 
Aqui mora algum defunto.” 

Pensando melhor e nos dias que correm cada vez faz mais sentido pedir o “Pão por Deus”, de qualquer forma, obrigada João por ires buscar as crianças.

10.28.2012

ainda de ursos

A primeira foto é da artista que tem o blog désaccord, onde nos perdemos nas peças e nas fotografias.

As outras fotos fazem parte de um livro de crochet de 1973 e de facto este look retro é absolutamente fantástico
 retro. as formas e as c pelas formas e cores
via artsyants

10.27.2012

\-/

ontem foi dia de yoga, o que em boa verdade é o dia em que aprendemos um pouco mais de nós. é incrível o estado de espírito com que entramos e mais tarde saímos. somos poucos e para quem ache que o yoga é apenas meditação, engana-se. trabalha-se o corpo. nem sempre é fácil. caminhamos devagar e sabem bem as vitórias.
todas as coisas têm o seu momento alto, aquilo que nos toca mais, retemos. o que gostamos mais, guardamos. ontem e já na fase de relaxamento em que o corpo arrefece, a Rita tapou-nos, enrolou-me os pés e percorreu-me uma sensação de protecção que há muito tinha esquecido.
quando era pequena não me lembro de ver a minha mãe doente. ela estava lá, presente, para as nossas doenças, para as nossas queixas, sorrisos, brincadeiras. estava.
a partir do momento em que fui mãe percebi que o nosso tempo e as nossas doenças diluem-se na vida deles. foi bom sentir-me aconchegada.

a fotografia pertence à artista que tem o blog Miga de Pan, que tem um trabalho fantástico.

Brichopas




O outono tem a capacidade de despertar em mim uma ambiguidade de sentimentos. Sabe bem o regresso das cores que o verão roubou, devolvendo uma paleta que até a ele era desconhecida. Um tapete quente cobre o chão e na memória diluem-se mergulhos tardios e pés descalços. Dois meses intensos escondem a dureza do inverno de quem um dia trocou a cidade pelo campo. O inverno dói por estes sítios.
E porque estes dias me lembram o trabalho da artista checa Marie Mrnavkova, que alimenta Brichopas, um blog que tem na origem do seu nome uns desenhos animados checos sobre dois ursos.  E claro, um magnífico trabalho com um urso. Marie é ainda criadora da marca de brinquedos Sapitó.


A segunda e terceira imagem são da autoria 
Marie Mrnavkova

10.26.2012

quando as letras se fundem em sabores




Há muito que trato o blog de uma forma displicente, mas a verdade é que sinto falta deste espaço de partilha por vezes um tanto intimista.
Há coisas e livros que demoram tempo a aparecer. Há momentos que se perdem no tempo, quando em determinado tempo eu acho urgente mostrar.
Um desses livros é “A cozinha da dona Nininha”, que comprei quando estive este ano no Brasil e que dessa viagem ficaram apenas imagens. Faltaram palavras, sabores, gente que ficou no coração. Faltou a partilha dos risos, das nossas e das brincadeiras deles. Do gosto das frutas, do mar que não saía do olhar. Do céu enjoado que abafava o tempo. Das tempestades que não me lembrava.
“Dona Nininha” trouxe o sabor doce dessas semanas.
“Nessa casinha azul funcionava a cozinha de dona Nininha. ‘Dona’ é apenas uma formalidade, pois ela era uma mocinha de longos cabelos pretos, olhos de jabuticaba e bem pouca idade.,
(e que saudades do sabor da jabuticaba, que se picava no mercado), Desde pequenina, seu brinquedo preferido eram as panelinhas de plástico, com que brincava horas a fio, sem interrupção. Agora já bastante crescida, passa dias e até semanas inteiras testanto novas receitas, com a barriga no fogão”
Escrito por Lená Loureiro e ilustrado por Cecília Afonso Esteves, de quem gosto tanto (já tinha falado dela a propósito deste livro).
“Dona Nininha” trouxe o sabor doce de quem gosta do que faz.

A segunda e terceira imagem são da autoria de Cecília Afonso Esteves
As palavras que surgem a azul são informações adicionais com links específicos.

10.25.2012

namastê

por necessidade comecei a fazer yoga, não sou de explodir aos pouquinhos. acumulo. quando sai, sai muito. neste acumular estão também contraturas, que me desgastam nos dias.
estou a aprender. a aprender a sentir-me. a libertar a cabeça dos pensamentos que o coração não quer sentir. tenta-se um regresso à infância, esse lugar longínquo onde um dia habitámos e que tantas vezes temos vontade de revistar. a memória trai-nos. a nostalgia invade-nos. Rita preciso de ti. mais vezes.

10.15.2012




Educar não é fácil, aprendemos todos os dias com os nossos próprios erros, mas acredito que a criatividade é um ingrediente fundamental nesta arte tão complexa. Complexa porque somos todos tão diferentes e receptíveis a estímulos tão variados. Uma coisa tenho como certa, é preciso tempo. Criatividade e tempo. Ritmo que temos de respeitar e saber contornar.
Já tinha manifestado a vontade de iniciar o Manel no mundo de Jacques Tati, com o famoso Sr. Hulot, personagem inadaptada, habituada ao seu mundo caloroso, em contra ponto a uma sociedade rendida à tecnologia e ao exibicionismo, mas era preciso tempo e uma boa dose de criatividade, afinal estou a falar de filmes do fim dos anos 40 ao anos 70 de 1900.
A editora Kalandraka pelas mãos de David Merveille deu o pontapé de saída nesta abordagem, com "O Papagaio de Monsieur Hulot", uma figura que por si só já capta o olhar dos mais pequenos. De gabardina, meias às riscas, guarda chuva e cachimbo, é sem dúvida um reflexo do seu humor. Um humor inteligente. E através do livro chegámos ao primeiro de três filmes que quero partilhar com ele. Ontem vimos “O meu tio” (Mon oncle), de 1958. O quase silêncio é satirizado pelo caminhar das personagens, por um complexo labirinto que antecede a porta da casa de Hulot e por uma fonte que só é ligada com a chegada de uma visita. Convém lembrar que o filme passa-se em França no pós-guerra e em plena recuperação económica e, portanto, para a classe alta, muito fixada em ostentação de riqueza. De um humor simples e subtil, este filme conta ainda com um visual fantástico, e, apesar dos poucos diálogos assegurou umas risadas espontâneas. O grande reparo pela parte do M. prendeu-se com o título, sugerindo antes, “Momentos com o meu tio”. Vencedor de inúmeros prémios nomeadamente no Festival de Cannes em 1958, não consigo ficar indiferente às capas desta reedição da Atalanta filmes, e que apesar de algum esforço não consegui saber quem as desenhou, mas que mãe e filho aconselham vivamente.

E ansiosamente que "A Coisa Perdida" de Shaun Tan chegue às livrarias
As palavras que surgem a azul são informações adicionais com links específicos.

10.12.2012

costumes


Do que me lembro desta coisa do galar era ser levada pela minha cunhada a ver os surfistas do campeonato de windsurf no Guincho, e para falar a verdade era óptimo porque quem vive ou viveu naquelas paragens lembra-se que era a única altura no ano em que não havia vento, claro na gíria tínhamos os marinheiros em terra, ou melhor dizendo, os surfistas a queixarem-se para bem das nossas vistas.
Até hoje, quando dei uma facada numa melancia e fui questionada se não a galava primeiro. A única coisa que tinha em mente era a ideia de como a iria servir ao jantar, e, apesar de sermos os mesmos todos os dias, os mimos sabem bem e apresentá-la em forma de coração estava longe do galanteio.
Mas esta coisa dos costumes tem o que se lhe diga, até no galar. E pelo que li os homens sempre se sentiram mestres na matéria. Até galar uma melancia era coisa de homens. Um corte preciso em forma de triângulo ditava se a melancia estava madura e de bom sabor. Caso não fosse do agrado do comprador, o vendedor escolhia outra e lá voltava tudo ao início. 
Dar pequenos toques na casca também servia para ver se a melancia estava no ponto. Os graves eram precisos nesta melodia do galar.
A luta pelo galo. O galo era a parte de cima que cada talhada deixava ao ser cortada e ninguém ousava tocar-lhe “sob o risco de levar uma facada nas mãos e ficar sem um dedo”.
Profanei a arte do galar ao cortar a melancia desta maneira. Não houve o lambuzar das caras que me lembro, isso sim, em criança. Ficaram os mimos e alguns saberes.

10.09.2012

de outono


o dia trouxe os cheiros de outono para dentro de casa. maçã. canela. abóbora. e um dado cheiro a ausência.

e o começar de um novo livro.


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