Ao meu amigo João,
O melhor será começar pela palavra tradição, símbolo de memória, uso ou hábito. A tradição é a via pela qual os factos ou dogmas são transmitidos de geração em geração sem mais prova autêntica da sua veracidade que essa transmissão.
É verdade que as tradições traduzem a identidade de um povo e, se no dia 1 de Novembro de 1755, com o terramoto houve a necessidade de se pedir ajuda, sim, porque o “Pão por Deus”, não era mais que uma esmola para amenizar a perda de quem ficou sem nada.
Essa tradição manteve-se por Lisboa e arredores, primeiro recordando as vítimas desse dia, depois porque era tradição e já não se questionava a sua razão. Podemos perguntar que sentido fazia ser adoptada pelo resto do país? Por tradição?
Mais, eram as crianças a quem lhes era delegada a tarefa de pedir, e se recuarmos àquele dia, podemos imaginar que os adultos estariam mais ocupados em cuidar dos mortos, por isso o dia 1 de Novembro ser o Dia dos Finados, como arranjar lugar para dormir. Também era mais fácil sentir compaixão por aqueles meninos que acabavam por receber aquilo que havia, castanhas, maçãs, romãs. O que a terra dá por essas alturas.
Com o passar do tempo o “Pão por Deus” sofreu algumas alterações e os meninos passaram a receber doces e algum dinheiro.
Mas o que dizer do Halloween, que nos bateu à porta, sem qualquer tradição e numa onda consumista.
A palavra Halloween deriva da expressão “All hallow’s eve”, que significa a “véspera de todos os santos”. Abreviando “à má fila” a explicação que se impunha, mas que num próximo post irei fazer, as crianças batem às portas com a frase na boca “doçura ou travessura”. Cabe a quem dá escolher.
Mas na tradição portuguesa, com o seu propósito original desvirtuado, as crianças também pedem doçuras, mas com versos na boca,
"Bolinhos e bolinhos
Para mim e para vós
Para dar aos finados
Qu'estão mortos, enterrados"
"Pão, pão por deus à mangarola,
encham-me o saco,
e vou-me embora.”
Cabe novamente a quem dá escolher.
“Olha foram-me os ratos ao pote e não me deixaram farelo nem farelote”
Mais uma vez a travessura, mas que vinha em forma de verso,
“O gorgulho gorgulhote,
lhe dê no pote
e lhe não deixe,
farelo nem farelote.”
“Esta casa cheira a alho
Aqui mora um espantalho
Esta casa cheira a unto
Aqui mora algum defunto.”
Pensando melhor e nos dias que correm cada vez faz mais sentido pedir o “Pão por Deus”, de qualquer forma, obrigada João por ires buscar as crianças.


















