12.10.2012

onde o nosso coração está


quando nos mudámos para o Alentejo trazíamos na mala o romantismo de viver no campo. tudo era novo e invariavelmente apetecível por tudo o que de diferente despertava em nós. em todos os sentidos.
conheci o senhor M. porque precisei de umas prateleiras para um nicho que, por altura das obras, decidimos não destruir, como quase tudo.
não o conhecíamos. culpa nossa, porque não era um simples carpinteiro. Com a mestria de quem trata o material por tu, dava vida a peças que o destino já há muito tinha posto no lixo.
aceitou o trabalho, apenas e porque simpatizou connosco. ao fim de quase 12 anos lá estão elas sem um empeno, milimetricamente desenhadas para um espaço que de milimétrico apenas tem os poros.
com um humor peculiar, só se dava a quem queria. sabia o que fazia e fazia-o muito bem. não havia bicho que ali permanecesse por muito tempo. amigos que trazíamos de Lisboa frequentaram a casa deles, como amigos deles se se tratassem.
um dia o caruncho chegou-lhe a casa. sentiu-se mal. não era nada, mas era tudo. o corpo perdeu-se no cansaço. perdemo-lo porque ele o decidiu.
hoje ao levar o M. à escola cruzei-me com a mulher. mantemos alguns almoços. menos dos que gostaria.
naquela altura pensei que não iria aguentar. enganei-me. olho-a e penso que é preciso força para continuar e para mudar.
ao longe os sinos dobram e uma dada angustia apodera-se dos pensamentos. inquieta-me esta proximidade que ao mesmo tempo é tão distante.
há sítios que nos marcam de uma forma indelével, mas a nossa casa é, onde o nosso coração está.

12.06.2012

desembaraçar a mão


Em Março deste ano tivemos a possibilidade de passar 3 semanas entre Santos e São Paulo. confesso que ao aproximar-se o dia da viagem sentia-me inquieta. sou eu. não sei ser de outra maneira. sofro com a mudança. voltei a gostar e uma vez por outra com uma dada saudade. da gente. do clima.
naquele dia estivemos juntos de Niemeyer e somos esmagados. o nosso olhar é muito. tanto que a máquina não consegue apanhar. o nosso olho é vivo, como será sempre vivo quem o fez.
quem dizia que era preciso desembaraçar a mão, perdeu aos 104 anos, quando a vida decidiu desembaraçar-se dele

11.25.2012



ilustrações em acrílico sobre papel de aguarela com cerca de 16X22 a preços simpáticos 

11.20.2012

11.12.2012

o que chega a casa


chegou hoje a casa uma edição lindíssima e muito cuidada do 5º Encontro Nacional em São João da Madeira. Quanto ao catálogo, e pela minha parte falo, muito bem impresso. Uma vez mais a Junta de São João da Madeira está de parabéns.

11.07.2012

Keep it simple


Quando vi pela primeira vez o jogo Story Cubes percebi que tinha de ir para a minha infindável wishlist, que tem o defeito de não diminuir, mas sim de aumentar, mesmo com bastantes critérios na escolha. Nove dados rolam sobre a mesa e a brincadeira começa. O princípio pode ser o “era uma vez”, mas aos poucos ganha-se a confiança das e nas palavras. Fazem-se trocadilhos, rejeita-se o que temos por verdade, num jogo que se Quer assim, sem chavões, sem certezas. Capaz de combinar milhares de saberes. Conta-me outra vez essa história. Não posso. É única. A tua imaginação sobrepõe-se às imagens. E há quem goste de te ouvir contar.

comprado aqui

é assim




Há dias falava com um amigo sobre esta estranha relação que se pode ter com os livros. Os livros são o amor de uma vida que não queremos perder. São a paixão arrebatadora que nos esmaga, que nos leva a noites perdidas. Mas são também desamores, desilusões que nos impelem ao virar de página e a partir para uma nova história.
Dei por mim com um sentimento contrário ao que era de esperar. Apaixonei-me pelo último livro de Paulo Lins, “Desde que o samba é samba”. Pela própria narrativa passada no final dos anos 20 e início dos anos 30 de 1900, onde o cruzamento de culturas, a prostituição que chegava da europa, a vadiagem, os proxenetas, a música nos bares em modo quase clandestino, e este modo carnal com que Lins escreve, cresce e transforma-se em arte. Prende-nos em cada palavra. Ao contrário do que diria O’Neill não se estranha, mas entranha-se. De tal modo que dou por mim a não querer acabá-lo, com o mesmo receio de perder um grande amor. Do medo da escrita de uma próxima leitura. Neste momento é tudo muito visceral e quero que permaneça assim. Por mais um pouco.
Ainda da minha estranha relação com as letras uma mania que me persegue há muitos anos. Detesto o acumular de jornais e revistas. Rasgo aquilo que me interessa para saborear mais tarde. O problema é que se acumulam demais

11.02.2012

livros, cheiros, sabores e algumas faltas



para quem gosta de livros e não falo só no livro enquanto objecto de leitura, mas no livro na sua forma, no seu grafismo, no seu cheiro, perceberá aquilo de que vou falar. ontem ofereci ao Manuel o livro com a história do filme do Tim Burton, Frankenweenie e a primeira reacção foi cheirá-lo. é quase indescritível, mas engoliu-o pelo nariz, senti-lhe o inalar a percorrer-lhe o corpo num arrepio que terminou com uma expressão de prazer, que até a mim me arrepiou, lembrando-o do cheiro do livro da "Invenção de Hugo".
gosta-se, e quando se gosta as palavras esgotam-se, a não ser aos escritores maiores.
ainda a propósito do filme do Tim Burton aventurei-me num bolo que o M. levou para casa de uns amigos.
gosta-se, e quando se gosta o sorriso na cara deles supera o cansaço.
agora falta o filme e para isso tenho de ir a Lisboa.
ainda de livros. gosto do aproveitamento que a Bulhosa faz das provas de máquina transformando-as em papel de embrulho. uma história que guarda outra história

tutorial do "sparky"
As palavras que surgem a azul são informações adicionais com links específicos

10.31.2012

tradição




Ao meu amigo João,

O melhor será começar pela palavra tradição, símbolo de memória, uso ou hábito. A tradição é a via pela qual os factos ou dogmas são transmitidos de geração em geração sem mais prova autêntica da sua veracidade que essa transmissão.
É verdade que as tradições traduzem a identidade de um povo e, se no dia 1 de Novembro de 1755, com o terramoto houve a necessidade de se pedir ajuda, sim, porque o “Pão por Deus”, não era mais que uma esmola para amenizar a perda de quem ficou sem nada.
Essa tradição manteve-se por Lisboa e arredores, primeiro recordando as vítimas desse dia, depois porque era tradição e já não se questionava a sua razão. Podemos perguntar que sentido fazia ser adoptada pelo resto do país? Por tradição?
Mais, eram as crianças a quem lhes era delegada a tarefa de pedir, e se recuarmos àquele dia, podemos imaginar que os adultos estariam mais ocupados em cuidar dos mortos, por isso o dia 1 de Novembro ser o Dia dos Finados, como arranjar lugar para dormir. Também era mais fácil sentir compaixão por aqueles meninos que acabavam por receber aquilo que havia, castanhas, maçãs, romãs. O que a terra dá por essas alturas.
Com o passar do tempo o “Pão por Deus” sofreu algumas alterações e os meninos passaram a receber doces e algum dinheiro.
Mas o que dizer do Halloween, que nos bateu à porta, sem qualquer tradição e numa onda consumista.
A palavra Halloween deriva da expressão “All hallow’s eve”, que significa a “véspera de todos os santos”. Abreviando “à má fila” a explicação que se impunha, mas que num próximo post irei fazer, as crianças batem às portas com a frase na boca “doçura ou travessura”. Cabe a quem dá escolher.


Mas na tradição portuguesa, com o seu propósito original desvirtuado, as crianças também pedem doçuras, mas com versos na boca,

"Bolinhos e bolinhos 
Para mim e para vós 
Para dar aos finados 
Qu'estão mortos, enterrados" 

"Pão, pão por deus à mangarola, 

encham-me o saco, 
e vou-me embora.” 

Cabe novamente a quem dá escolher.
“Olha foram-me os ratos ao pote e não me deixaram farelo nem farelote” 


Mais uma vez a travessura, mas que vinha em forma de verso, 

“O gorgulho gorgulhote, 
lhe dê no pote 
e lhe não deixe, 
farelo nem farelote.”


“Esta casa cheira a alho 
Aqui mora um espantalho 
Esta casa cheira a unto 
Aqui mora algum defunto.” 

Pensando melhor e nos dias que correm cada vez faz mais sentido pedir o “Pão por Deus”, de qualquer forma, obrigada João por ires buscar as crianças.

10.28.2012

ainda de ursos

A primeira foto é da artista que tem o blog désaccord, onde nos perdemos nas peças e nas fotografias.

As outras fotos fazem parte de um livro de crochet de 1973 e de facto este look retro é absolutamente fantástico
 retro. as formas e as c pelas formas e cores
via artsyants

10.27.2012

\-/

ontem foi dia de yoga, o que em boa verdade é o dia em que aprendemos um pouco mais de nós. é incrível o estado de espírito com que entramos e mais tarde saímos. somos poucos e para quem ache que o yoga é apenas meditação, engana-se. trabalha-se o corpo. nem sempre é fácil. caminhamos devagar e sabem bem as vitórias.
todas as coisas têm o seu momento alto, aquilo que nos toca mais, retemos. o que gostamos mais, guardamos. ontem e já na fase de relaxamento em que o corpo arrefece, a Rita tapou-nos, enrolou-me os pés e percorreu-me uma sensação de protecção que há muito tinha esquecido.
quando era pequena não me lembro de ver a minha mãe doente. ela estava lá, presente, para as nossas doenças, para as nossas queixas, sorrisos, brincadeiras. estava.
a partir do momento em que fui mãe percebi que o nosso tempo e as nossas doenças diluem-se na vida deles. foi bom sentir-me aconchegada.

a fotografia pertence à artista que tem o blog Miga de Pan, que tem um trabalho fantástico.

Brichopas




O outono tem a capacidade de despertar em mim uma ambiguidade de sentimentos. Sabe bem o regresso das cores que o verão roubou, devolvendo uma paleta que até a ele era desconhecida. Um tapete quente cobre o chão e na memória diluem-se mergulhos tardios e pés descalços. Dois meses intensos escondem a dureza do inverno de quem um dia trocou a cidade pelo campo. O inverno dói por estes sítios.
E porque estes dias me lembram o trabalho da artista checa Marie Mrnavkova, que alimenta Brichopas, um blog que tem na origem do seu nome uns desenhos animados checos sobre dois ursos.  E claro, um magnífico trabalho com um urso. Marie é ainda criadora da marca de brinquedos Sapitó.


A segunda e terceira imagem são da autoria 
Marie Mrnavkova

10.26.2012

quando as letras se fundem em sabores




Há muito que trato o blog de uma forma displicente, mas a verdade é que sinto falta deste espaço de partilha por vezes um tanto intimista.
Há coisas e livros que demoram tempo a aparecer. Há momentos que se perdem no tempo, quando em determinado tempo eu acho urgente mostrar.
Um desses livros é “A cozinha da dona Nininha”, que comprei quando estive este ano no Brasil e que dessa viagem ficaram apenas imagens. Faltaram palavras, sabores, gente que ficou no coração. Faltou a partilha dos risos, das nossas e das brincadeiras deles. Do gosto das frutas, do mar que não saía do olhar. Do céu enjoado que abafava o tempo. Das tempestades que não me lembrava.
“Dona Nininha” trouxe o sabor doce dessas semanas.
“Nessa casinha azul funcionava a cozinha de dona Nininha. ‘Dona’ é apenas uma formalidade, pois ela era uma mocinha de longos cabelos pretos, olhos de jabuticaba e bem pouca idade.,
(e que saudades do sabor da jabuticaba, que se picava no mercado), Desde pequenina, seu brinquedo preferido eram as panelinhas de plástico, com que brincava horas a fio, sem interrupção. Agora já bastante crescida, passa dias e até semanas inteiras testanto novas receitas, com a barriga no fogão”
Escrito por Lená Loureiro e ilustrado por Cecília Afonso Esteves, de quem gosto tanto (já tinha falado dela a propósito deste livro).
“Dona Nininha” trouxe o sabor doce de quem gosta do que faz.

A segunda e terceira imagem são da autoria de Cecília Afonso Esteves
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10.25.2012

namastê

por necessidade comecei a fazer yoga, não sou de explodir aos pouquinhos. acumulo. quando sai, sai muito. neste acumular estão também contraturas, que me desgastam nos dias.
estou a aprender. a aprender a sentir-me. a libertar a cabeça dos pensamentos que o coração não quer sentir. tenta-se um regresso à infância, esse lugar longínquo onde um dia habitámos e que tantas vezes temos vontade de revistar. a memória trai-nos. a nostalgia invade-nos. Rita preciso de ti. mais vezes.

10.15.2012




Educar não é fácil, aprendemos todos os dias com os nossos próprios erros, mas acredito que a criatividade é um ingrediente fundamental nesta arte tão complexa. Complexa porque somos todos tão diferentes e receptíveis a estímulos tão variados. Uma coisa tenho como certa, é preciso tempo. Criatividade e tempo. Ritmo que temos de respeitar e saber contornar.
Já tinha manifestado a vontade de iniciar o Manel no mundo de Jacques Tati, com o famoso Sr. Hulot, personagem inadaptada, habituada ao seu mundo caloroso, em contra ponto a uma sociedade rendida à tecnologia e ao exibicionismo, mas era preciso tempo e uma boa dose de criatividade, afinal estou a falar de filmes do fim dos anos 40 ao anos 70 de 1900.
A editora Kalandraka pelas mãos de David Merveille deu o pontapé de saída nesta abordagem, com "O Papagaio de Monsieur Hulot", uma figura que por si só já capta o olhar dos mais pequenos. De gabardina, meias às riscas, guarda chuva e cachimbo, é sem dúvida um reflexo do seu humor. Um humor inteligente. E através do livro chegámos ao primeiro de três filmes que quero partilhar com ele. Ontem vimos “O meu tio” (Mon oncle), de 1958. O quase silêncio é satirizado pelo caminhar das personagens, por um complexo labirinto que antecede a porta da casa de Hulot e por uma fonte que só é ligada com a chegada de uma visita. Convém lembrar que o filme passa-se em França no pós-guerra e em plena recuperação económica e, portanto, para a classe alta, muito fixada em ostentação de riqueza. De um humor simples e subtil, este filme conta ainda com um visual fantástico, e, apesar dos poucos diálogos assegurou umas risadas espontâneas. O grande reparo pela parte do M. prendeu-se com o título, sugerindo antes, “Momentos com o meu tio”. Vencedor de inúmeros prémios nomeadamente no Festival de Cannes em 1958, não consigo ficar indiferente às capas desta reedição da Atalanta filmes, e que apesar de algum esforço não consegui saber quem as desenhou, mas que mãe e filho aconselham vivamente.

E ansiosamente que "A Coisa Perdida" de Shaun Tan chegue às livrarias
As palavras que surgem a azul são informações adicionais com links específicos.

10.12.2012

costumes


Do que me lembro desta coisa do galar era ser levada pela minha cunhada a ver os surfistas do campeonato de windsurf no Guincho, e para falar a verdade era óptimo porque quem vive ou viveu naquelas paragens lembra-se que era a única altura no ano em que não havia vento, claro na gíria tínhamos os marinheiros em terra, ou melhor dizendo, os surfistas a queixarem-se para bem das nossas vistas.
Até hoje, quando dei uma facada numa melancia e fui questionada se não a galava primeiro. A única coisa que tinha em mente era a ideia de como a iria servir ao jantar, e, apesar de sermos os mesmos todos os dias, os mimos sabem bem e apresentá-la em forma de coração estava longe do galanteio.
Mas esta coisa dos costumes tem o que se lhe diga, até no galar. E pelo que li os homens sempre se sentiram mestres na matéria. Até galar uma melancia era coisa de homens. Um corte preciso em forma de triângulo ditava se a melancia estava madura e de bom sabor. Caso não fosse do agrado do comprador, o vendedor escolhia outra e lá voltava tudo ao início. 
Dar pequenos toques na casca também servia para ver se a melancia estava no ponto. Os graves eram precisos nesta melodia do galar.
A luta pelo galo. O galo era a parte de cima que cada talhada deixava ao ser cortada e ninguém ousava tocar-lhe “sob o risco de levar uma facada nas mãos e ficar sem um dedo”.
Profanei a arte do galar ao cortar a melancia desta maneira. Não houve o lambuzar das caras que me lembro, isso sim, em criança. Ficaram os mimos e alguns saberes.

10.09.2012

de outono


o dia trouxe os cheiros de outono para dentro de casa. maçã. canela. abóbora. e um dado cheiro a ausência.

e o começar de um novo livro.


9.27.2012

as andorinhas andam inquietas e há lágrimas nos olhos dos peixes


Existem momentos em que a natureza inevitavelmente fala connosco, ou simplesmente nos sentimos parte dela.
Ontem a inquietação das andorinhas deixava adivinhar um novo começo, ou um fim. Esta nostalgia provocada pela contradição em si deixa-me em dado momento algo angustiada, de muito me sentir inquieta.
Não posso ignorar um novo tempo que aí vem, mas como em quase tudo na minha vida, nunca gostei do primeiro dia de coisa alguma. Há recomeços, há incertezas e doem. Muito. Como também há lágrimas nos olhos dos peixes, lágrimas de partida. Lágrimas de um tempo que já foi bom. Um espelho de água que se mantem pelo choro calado dos peixes.

9.25.2012

Fico


FICO | Falaste-me da planície e do espelho de água tremeluzente ao fundo da paisagem. Falaste e eu só olhei para ti, para o verde dos teus olhos que se interpunha entre mim e a miragem.
Pensei…Como vamos sobreviver na planura sem mais nada senão a ternura dos dias que se vão sucedendo? Será que tudo isto é excessivamente vazio ou existem razões escondidas no reverso do tronco dos sobreiros? Reinvento todos os dias o horizonte, semeando alentos que me fazem ficar por aqui, pois a tua pele cheira exatamente como este lugar onde me encontro,
espiando de soslaio a sombra do teu ombro. E fico. Fico um pouco mais, à espera do voo da andorinha e do teu arrulhar discreto no beiral que é nosso teto. Miguel Horta

Fico

a trabalhar numa ilustração para um texto do Miguel Horta e completamente fascinada com os daguerreótipos (daguerreotype)

9.19.2012

5º Encontro Nacional de Ilustração

foge-me o tempo nas horas que te vejo crescer.

esta é a minha participação para o 5º Encontro de Ilustração (ver programa aqui)

"Lápis, tu conténs um ciclo de vida inteiro,
Inscrevendo a passagem do tempo nas tuas entranhas
Permitindo, porém, a inscrição de uma marca quase atemporal.
Lápis, em único testemunho do nascimento, da vida e da morte da árvore,
Bem podes orgulhar-te da tua origem na terra,
Do teu crescimento para o céu,
Da tua formação com o fogo,
E da tua aliança transformadora com a água.
Como uma árvore genealógica, inscreves em ti o genograma dos quatro elementos vitais,
Das quatro componentes fundamentais que estruturam um conto,
Ancestral, magnífico, imemorial."...

7.19.2012

a mãe que chovia

Desde pequena que tenho por maior amigo os lápis. Tive a infância povoada de cores e nunca me preocupei em querer ser outra coisa que passasse além do rabiscar. Não sabia o que realmente viria a ser, mas passava por esta coisa mágica que é dar vida a quem vive no papel.
Hoje e porque tenho os livros por companhia, penso que escrever podia ser o sonho escondido. Escrevo melhor na cabeça. Fico-me pela leitura de quem tem a consciência das letras de outros.
Já gostava de José Luís Peixoto, mas a sua estreia na literatura infantil com o livro “A Mãe Que Chovia” é prova de um novo grande homem das letras.
Um livro de uma ternura invulgar e de uma simplicidade ao mesmo tempo desarmante. Um filho da chuva que se vê obrigado a partilhar o amor da mãe. Uma partilha difícil que só um amor incondicional permite. Um livro de partilhas.
“Eu tenho a certeza de ti, tu tens a certeza de mim” e a vontade de acolchoar o mundo. 

7.18.2012

leituras






















há um bom par de anos li uma crónica de Miguel Esteves Cardoso em que vociferava contra alguns intelectuais sobre esta coisa dos livros. A questão não era a leitura no seu exercício mais simples, mas uma leitura dos GRANDES. Senti que lhe significou o maior desprezo. Gostei. MEC metaforizou com a barriga. Não morremos de fome por não termos um bom bife e se é verdade que nem só de pão vive o homem, é mais do que verdade, que na "falta de um bom livro lê-se uma merda qualquer". Marcou-me. Marcou-me durante estes anos.
Ao folhear a revista Ler parei no top de vendas e senti um murro no estômago. Não há dinheiro. Não há dinheiro para nada. E se em muitas casas deixou de haver dinheiro para um bom bife custa-me que se gaste dinheiro em "merda de livros". Desculpe MEC, mas não volto a invocar a sua frase.

6.18.2012

a ilha




















com o fim das aulas é tempo de brincadeiras, de amigos que dormem por cá e até de novos amigos, e como é fácil para eles fazer amigos.
cheios de sonhos, pouco ou nada é intransponível. que seja assim enquanto dure.


é tempo de o acompanhar mais nas leituras e de desafios.
enquanto escrevia para a página infantil do DA, pedi-lhe que me fizesse o resumo do livro. um truque, ou aquilo que eu gosto de pensar, criatividade na abordagem, a verdade é que fez um belíssimo texto.



A Ilha” conta-nos a história de uma grande empreitada motivada pelo desejo que os habitantes tinham em criar uma ligação, uma ponte para o continente.

Com texto de João Gomes de Abreu e com ilustrações de Yara Kono, é um livro que fala muito dos nossos dias, sobre empreitadas, expectativas e sonhos. Aqui o problema é que o sonho era demasiado alto, a expectativa destes ilhéus ultrapassou em grande aquilo que se podia ter como certo. Perceberam isso quando ao construir uma ponte tão grande entre o seu ilhéu e o continente acabaram por destruir a sua “casa”. 

João Gomes de Abreu apesar de ter nascido em Moçambique viveu os seus primeiros tempos na ilha da Madeira. Embora hoje seja um continental sabe como é viver assim rodeado de sonhos.


Os livros vão passando e cada vez gosto mais do trabalho da Yara (lei-a aqui), que ao mesmo tempo me lembra muito o trabalho de Paloma Valdivia

6.12.2012

dever cumprido




































Com o último livro acabado e entregue na gráfica e com o fim de dois meses e meio de ateliers pelas escolas públicas de Lisboa, sente-se no corpo o cansaço do dever cumprido, mas com muitas dúvidas sobre o ensino. sinto que não estamos a preparar meninos e meninas para este século.

pouco preparados para o raciocínio, para o pensamento e muito agarrados a manuais. continuo a ver a preocupação de não se sair do risco. e como é bom pisar o risco. todos o pisámos seja no papel, seja na vida. faz-nos crescer. torna-nos melhores.

destes últimos meses trago abraços, sorrisos, colos, danças, meninos que pedem para os levarmos para casa. trago o coração na boca. do bom e às vezes também do menos bom.

regresso a casa, ao meu, porque também precisa de abraços, de colo, de beijos inventados e partilhados com nomes que são só nossos com uma linguagem própria de um código secreto. dos dois.
regresso a casa e vejo, que embora não pareça ele vai-me seguindo, e no fim há um pouco de mim no trabalho dele.

6.10.2012

Maria Keil

































andamos demasiado ocupados para nos apercebermos as perdas que sofremos todos os dias. perdemos sorrisos, perdemos a hipótese de nos verem sorrir, perdemos afectos, perdemos quem nos diz muito. perdemos. nessa altura questionamos a nossa existência, a vida, as coisas pequenas, as que não fazem sentido.


hoje estamos mais pobres, não pela artista Maria Keil, por isso também, mas porque morreu a mulher Maria Keil, parte de uma geração que acima de tudo acreditava em si, longe da "cagança".


mais do que fonte de inspiração, foi para o meu crescer fonte de colo. do meu e do dele.


"Os presentes" livro pertencente à colecção Histórias de "amor de mais" são o reflexo de Maria Keil enquanto ilustradora e autora, "que é bom gostar de ti"

ilustrou, pintou, escreveu, desenhou móveis, cenários e figurinos para bailados. Fez publicidade e criou imagens para selos, mas foi no inovador trabalho de azulejaria, presente em nove estações de metro de Lisboa, que Maria Keil mais oposição encontrou. "Isso não se faz. Uma pintora não se rebaixa a isso", diziam-lhe os "grandes", como lhes chama. "Agora, o azulejo é um negócio da China."  in Público.

a propósito de azulejos, dois painéis que estão na escola Victor Palla, onde recentemente estive com um grupo de crianças. nada têm de arte menor. 

de 1953 os dois primeiros são de Sá Nogueira e os dois últimos de Bento de Almeida, que tive o privilégio de conhecer, mas a precisarem rapidamente que alguém olhe para eles enquanto ainda existem.


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