6.02.2011

quinta-feira de espiga




























Filha de uma mãe desiludida com a igreja, cresci um pouco fora de rituais cristãos, e de outros que a memória tratou de os confundir e se tornaram mais ou menos pagãos.

Já lá vão muitos anos desde que tive o primeiro ramo de espigas na mão. Estava a chegar ao jornal e na recepção esperava-me um envelope sem remetente.
Sempre carregada com malas e bagagens, agarrei-o. Morri quase de curiosidade, mas só o abri já na minha secretária. Lembro-me de o ter aberto ainda em pé e de ter exclamado – ofereceram-me flores do campo.

Falei alto, enterneci-me, revi na memória quem pudesse ser o autor de tal envio. Sim, porque gosto de flores do campo. Sim, porque alguém sabia que eu gostava de flores do campo. Uma outra voz falou mais alto – Rute, hoje é quinta-feira de espigas.
Envergonhei-me, sim, é verdade, mas houve alguém que se lembrou de mim.

Percebo cada vez mais que viver no interior se tornou sinónimo de solidão.
Lisboa mantém as suas vendedoras de ramos, e o que seria natural é que hoje, um dia em “que nem os pássaros bolem nos ninhos”, conforme a tradição, se pudesse ir para os campos colher as ditas flores, não fosse agora um Alentejo vedado, farpado e cada vez mais sozinho.

Que haja espigas com fartura, que os malmequeres continuem a despontar, pinceladas de encarnado retoquem molhos de alecrim para gozarmos as videiras com uma oliveira de candeia.

1 comentário:

  1. Lindo Rute!
    Vou hoje revelar-te um segredo. Nós vamos "povoar" o Alentejo no próximo ano lectivo:)
    Depois conto mais, mas um ramo de espiga dava jeito à entrada da casinha!

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