5.25.2011

cheiros




















Depois de alguma “publicidade” que fiz sobre uma lista de livros de autores brasileiros, a verdade é que não falei deles, não os mostrei, talvez pelo simples facto de estar numa fase de enamoramento. Deles. Como nos amores, no princípio dos amores, a vida passa-nos ao lado. E assim tem sido. Guardei-os para mim. À noitinha deixo-me abraçar pelas páginas, pelas palavras, histórias, imagens e pelos cheiros. O cheiro é estranho. Não por ser mau ou bom, mas porque são cheios de si. Permanecem em nós, em memórias silenciosas e subitamente despertam num amontoado de recordações.

Amazonas no coração encantado da floresta”, de Thiago Mello, e editado pela Cosac Naify, trouxe-me o cheiro do mar. Do meu mar.

Sete histórias recontadas no mesmo registo de quem fala a língua local, de quem vive lá, há mais de vinte anos, à beira do rio Paraná-dos-Ramos.
Andrés Sandoval, quem ilustra, traz para cada página a exuberância da Amazónia. Num registo que me lembra muito a Tarabooks.


Tucuxi dançarino, uma das histórias.

“Das histórias que guardo do boto tucuxi, prefiro a que me contou minha velha amiga Francisca Beltrão, morada de Barreirinha:
Era uma noite de festa no arraial do Lago de Sampaio. O baile no galpão coberto de palha já estava animado quando ele chegou.
Era um rapaz bonito, todo de branco e de chapéu de palhinha.
Dizem que não pode tirar o chapéu porque senão pulam peixinhos por um furo que ele tem na cabeça.
Pois bem: escolheu a cabocla mais formosa do salão e dançou com ela , a noite inteira, sem parar. Não falavam, mas ele não tirava os olhos dela.
De repente, pelo canto das corujas que se despediam das estrelas, se deu conta de que o dia começava a nascer. Largou da moça, saiu correndo e se atirou n’água lá do alto do barranco. No meio do salto foi desencantado , virando o boto que sempre foi. Porque boto só se encanta de noite.
– Ora, Francisca – comentei –, você está chovendo no molhado . Essa história eu a conheço igualzinha desde o meu tempo de rapaz.
– É, mas você não sabe do melhor. Eu vi, com estes meus olhos para ver de verdade, quando a moça enamorada também saiu correndo atrás do boto e se atirou n’água de roupa e tudo.
Nunca mais apareceu.
Melhor para ela. Hoje vive feliz, num palácio feito todo de madrepérolas, lá na fundura das águas, onde o tempo e o amor nunca se acabam.”

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