5.22.2008

Torcato Sepúlveda


sei que se estivesses, aqui, agora, me terias abraçado e dirias que nada disto tem importância.
que ficam as boas coisas. vieste-me ver no dia da Liberdade e hoje sou eu que te vou ver. vou-te encontrar com a calma que tu dizias que encontravas quando estavas aqui em casa. a casa que como diz o A. terá sempre um quarto. o teu quarto. o quarto do Torcato.

obrigada por teres sido o amigo, o companheiro, o conselheiro, o padrinho, o critico, o professor, obrigada por me tentares fazer crer que alguns que dizem ser teus amigos não te acarinharam nestes últimos tempos, que não fizeram justiça ao homem.

hoje no público há um comentário que me diz tudo "Sossega camarada, vamos vingar-te!"

obrigada por isto


Rute Reimão: o sol e a noite

Conheci Rute Reimão num jornal, para o qual amigos meus me convidaram. A transferência assemelhava-se a uma tomada de assalto. Rute já lá trabalhava como gráfica e ria alto. Um desses amigos piratas ficou como director gráfico. Quando me exigiram uma coluna semanal de opinião, ele propôs que Rute a ilustrasse. Eu, que a ignorava como criadora (problema meu), gostei da gargalhada e da timidez dela. Aceitei. Rute nada ilustrou. Sempre me obrigou – nesse malfadado semanário; o assalto falhou – a declarar com antecedência a matéria que iria tratar. Mas nunca ilustrou. Inventou sempre, em desenhos agrestes e desordenados, com palavras espalhadas como punhaladas num corpo barbaramente assassinado. A Rute transformava a realidade – ou melhor, a notícia – numa construção fantástica, gótica. Em traços violentos, quase sempre a preto e branco, raramente a cor surgia, Rute transformava a realidade em panfleto para chegar à poesia.Um dia, forneci como tema central da minha crónica o poeta surrealista francês Antonin Artaud. E ela reinventou Artaud. Belo como ele havia sido na realidade;maldito como ele sempre quis ser. Uma iluminação. Rute, agreste, suavizara o traço logo no tema mais violento que lhe propusera. Disse e volto a dizer: Rute não ilustra; Rute refaz um mundo alienado no qual só os desesperados se salvam. Quando o tema é demasiado banal, ela desvia-o pelo humor. Reencontrei-a no diário A Capital. Irónica, guardou paciência para acompanhar as minhas pobres crónicas.Se ainda houvesse grupo surrealista, Rute Reimão seria uma das egérias desses insurrectos da palavra, desses comunistas do génio. É filha do sol ou filha da noite? É filha da sua obra clandestina. Como convém.

3 comentários:

  1. Lamento a tua perda! Um beijinho, Alexandra

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  2. Estou tão triste... nunca pensei ficar assim. Só me lembro do dia das setas... Beijinhos para ti, para o A e para o M. Os nossos filhos ficaram sem pai natal. [sb]

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  3. E pensar que es tu a me anunciar a triste notícia. Eu cruzei-me várias vezes com ele, no Expresso e com a F. Foi a tanto tempo, outras vidas... e mesmo se nunca convivi com ele, a presença era marcante. Bem haja pelo teu testemunho.

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