3.24.2015

Primavera-me

o último fim de semana levou-nos ao Alentejo e percebo não com estranheza, mas sim com a certeza de ainda não ter conseguido pacificar-me. há muito que percebi que é necessário cumprir o tempo de nojo e sei que ainda não o fiz.

a casa grande apesar de continuar povoada de nós, parece sozinha e é estranho entrar...

o jardim perdeu a harmonia de outros tempos. mas no caos há quem resista


a magnólia esteve condenada à morte por três vezes.

a primeira vez fui dar com dois senhores a tentarem arrancá-la porque aparentemente estava morta, sem flores e folhas.

a segunda, um outro senhor, depois de descarregar uma tonelada de lenha e pensando que sabia do assunto resolveu podá-la na precisa altura em que despontavam os primeiros rebentos. nesse ano não houve flores.

a terceira vez foi literalmente comida pelo nosso cão.

para meu espanto lá estava ela, com meia dúzia de pernadas, mas altiva exibindo as suas flores.


a roseira brava há muito que se abraçou à buganvilia que ainda tem sinais das flores antigas, mas que em breve também se vestirá de cor

o jasmim está carregado de rebentos e a par com a hera ocuparam uma parede.

as laranjeiras estão carregadas e há roseiras teimosas que se juntam ao alecrim.

se tenho saudades?

talvez de um outro tempo...

delicio-me com a cidade que também se vestiu de primavera e aguardamos pela cor dos jacarandás

A Primavera
é o tempo das glicínias
das papoilas
e das flores amarelas nascerem nos campos

É o tempo
de fazer colares de flores

Herberto Helder

1930-2015


(...)
Ouvi dizer (...)

Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes. ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

_ a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

_como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
como uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria´
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia os olhos das ervas

que fixam estas coisas puras.
Renascia


in Ofício Cantante, Assírio & Alvim


Torcato, ganhaste um teu amigo para grandes conversas e cigarradas, onde quer que estejam. 

3.20.2015

ainda da Monstra


terça teve o início da noite no Cinema São Jorge para mais uma sessão da Monstra.

gostámos de Carrotrope de Paulo D'Alva, o Manuel em particular porque o seu gosto estético evoluiu e todo o traço mais realista ganhou um papel primordial na sua pequena vida...




Dimanche - Sunday de Patrick Doyon. Com um traço totalmente diferente, mas que foge ao politicamente correcto, onde a morte e os inesperados também acontecem, com uma grande dose de humor.




a exibição de dois grandes filmes de Špela Čadež e que já tinha falado aqui, - Love sick e Boles

Lipsett Diaries de Theodore Ushev é mais um filme que ganha pelo seu lado plástico. com um único ponto negativo, a legendagem que é feita num outro plano, fora do écrã. o melhor era ouvir o texto original e esquecer as legendas não fosse o Manuel a reclamar...




e ainda do Céu e da Terra de Isabel Aboim Inglez com argumento de Possidónio Cachapa

e a foto do projeto para não haver "baldanços"

11/52



Museu de Nacional de História Natural e da Ciência, na exposição "O Fascinante Mundo das Aranhas e dos Escorpiões"

A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.Shot on iphone 6

3.18.2015

responsabilidade

criar um blog nasce da necessidade primária de materializar o que fazemos, gostamos, ou mesmo e em alguns casos do que não gostamos.

é uma responsabilidade crescente quando existem pessoas que simpaticamente seguem os "nossos quereres".

este blog tem sido ao longo dos anos o reflexo da nossa vida, com dicas de coisas, espaços, saídas, de outros bloggers que nos têm trazido um aconchego diário. mas é também um espaço de partilha de dúvidas, de erros, de querer ser melhor.

gostava de passar aqui todos os dias, porque todos os dias teria o que contar.

vou-me escondendo no 52 project, até para justificar alguma ausência.

as duas últimas semanas têm sido engolidas por um projeto ambicioso, que me tem levado a correr metade da cidade à procura dos melhores orçamentos, da melhor relação qualidade-preço. algo que requer tempo, paciência e umas valentes caminhadas (segundo uma app, a minha média diária de passos é de 7816).

ainda em fase de arranque é um projeto que exige muita diplomacia, porque coordenar 500 pessoas não é uma tarefa fácil, precisamos de dar atenção a todos e trabalhar os sentimentos como se fossemos cirurgiões do coração. uma pessoa que se sinta posta de lado pode tornar-se na peça de dominó que faz cair todas as outras peças.

quando puder prometo revelar mais sobre esta loucura...

depois de uns dias magníficos de sol, ontem o céu trouxe o inverno de volta. e entre ateliês, reuniões, idas à escola do Manuel voltaram os nossos lanches.



ir a Sintra e não permanecer no Café Saudade é quase um crime. nascido pelas mãos da Mary (e as bonecas que um dia me ofereceu) e do Luís em 2009, a conceção deste espaço reflete o gosto que ambos têm pelas tradições, raízes e pela cultura portuguesa.

um espaço divido por várias áreas, com recantos deliciosos. não é só uma casa de chá, é um conceito mais abrangente porque funciona também como galeria, loja e espaço para tertúlias e concertos.


para o Manuel é um dos seus espaços preferidos, claro porque existem scones e num tamanho XL.

uma das minhas preocupações quando o M. nasceu era a alimentação. sei que me custou muitas criticas e muitos ajustes sobretudo quando viajávamos.

o M. nunca comeu um boião de fruta de compra, nem sopas embaladas.

os doces que come resumem-se a scones e a panqueqas e apesar de eu "alimentar" mal este outro blog, os doces que aqui aparecem são na maioria das vezes quando a casa traz para si amigos do coração.

nos últimos tempos temos feito algumas variantes de panquecas para acabar de vez com o uso do açúcar refinado.

os scones são quase sempre acompanhados por manteiga, no caso dele, e a mim quando me apetece um pouco de doce opto por esta receita:

1 chávena de framboesas, morangos ou amoras 
3 colheres de sobremesa de chia 
2 colheres de sobremesa de xarope de acer puro 
1 colher de chá de sumo de limão 

Esmagar as framboesas com um garfo, juntar os restantes ingredientes, misturar, guardar num frasco e colocar no frigorífico. Ao fim de 1 hora está pronto e dura até 5 dias no frigorífico. 


na calha está o pedido da granola da Martilicious Food. 




acima de tudo com amor porque é assim que se quer a vida.

3.12.2015

10/53 e antes que a semana acabe

de dia para dia torna-se mais difícil tirar-lhe uma fotografia, mas posso assegurar de que caminhamos juntos na descoberta de sítios diferentes.

e sem ser um apreciador de comida revela-se uma ótima companhia.

Kome-Lisboa, Yuko


A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.Shot on iphone 6

3.04.2015

Vivian Maier

o último número da flow traz um artigo sobre a vida enigmática de Vivian Maier que postumamente foi considerada uma das melhores fotógrafas americanas do século XX. o texto tem como base o livro "Vivian Maier: Self-Portraits" escrito por John Maloof autor do filme "Finding Vivian Maier" (vale mesmo a pena ver).

Van Gogh escreveu: Stars are the souls of dead poets, but to become a star, you have to die.

em 2007 Maloof comprou numa leiloeira uma caixa com cerca de 40 mil negativos com o nome de Vivian Maier, mas quem era esta mulher que se escondia atrás de um trabalho capaz de fazer parar a nossa respiração. tanto material e tão poucas respostas sobre esta ama que passou uma vida agarrada a uma rolleiflex e aos seus negativos sem nunca os revelar.

Na sua incansável procura, Maloof acaba por encontrar um contentor que estava destinado a acabar no lixo cheio de objetos pessoais de Maier. nele encontramos de tudo, roupa, chapéus, livros, faturas, negativos e centenas de horas gravadas em Super 8.

no documentário ficamos a conhecer um pouco desta mulher, tão reservada, nas vozes das crianças, hoje adultas, de que cuidou.

a leitura que Maloof faz de uma carta de Maier dá conta da sua tristeza por não cumprir o desejo de mostrar ao mundo o que fazia.

nunca saberemos qual o alcance das suas intenções, mas fica um extraordinário trabalho, intenso, poderoso e intimista.






e como nós adoramos espelhos...

obrigada à Rita, que linkou a Vivian Maier no instagram, sítio por onde gosto mais de andar


3.03.2015

duas exposições, dois filmes (II)

dois autores, dois países e duas estéticas com preocupações humanistas idênticas, era o início deste outro post onde só falei da eslovena Špela Čadež. hoje é a vez de José Miguel Ribeiro e que me leva a reflectir sobre o alimento que vamos proporcionando aos nossos filhos, um tema que já me tinha "obrigado" a pensar.

das muitas vezes que fomos ao Museu da Marioneta e com a intenção de ver uma ou outra exposição em particular, acabámos por ver também a permanente e descobrimos sempre novas marionetas consoante o grau de interesse daquele tempo.

de todas as vezes vimos sempre os cenários e alguns modelos do filme "A Suspeita", de José Miguel Ribeiro, mas foi preciso o professor do clube de cinema para o fazer redescobrir o filme.

é neste momento que sinto que o papel de mãe/pai como educador é um permanente desafio. questiono-me uma vez mais sobre o alimento no tempo certo, mas acredito que mesmo dado em alturas menos próprias, permanece no coração, e de uma forma ou outra, connosco ou com outras pessoas, com menos ou mais idade, ele vai acabar por usufruir do prato no seu todo.

ter a oportunidade de ver agora a nova produção de José Miguel Ribeiro foi para o Manuel como que nadar em águas conhecidas. dou um conselho aos pais que insistem, e muito bem, em levar as crianças a ver exposições, teatro, concertos, filmes, performances, expliquem-lhes primeiro o que vão ver, sobretudo no caso das exposições, para que as crianças se sintam seguras naquele mundo.

a exposição deste ano revela os segredos de Papel de Natal, que estreou no final de 2014, e que recupera a personagem Dodu, o rapaz de cartão. são assim exibidos três cenários principais deste filme, as suas personagens, 25 fotografias e vários adereços em imagem real e ainda a oportunidade para conhecer as etapas e processos de criação deste filme.

Floresta Mundi

o Monstro do Desperdício


Dodu e o Pássaro-Flauta



Dodu e Filipe, o pai de Camila


A esperança que Camila deposita em Dodu para encontrar o pai, cabe dentro de um envelope


o regresso a casa 

um projeto que contou com a participação da Câmara de Almada e de Montemor-o-Novo e da produtora Filmes da Praça.

para ver o making of




por aqui andamos a divertir-nos com algumas personagens



3.01.2015

um cheirinho da monstra

ainda longe das salas de cinema, a Monstra já começou a encantar grandes e pequenos com uma estreia no Largo do Intendente na passada sexta. destinado a um público mais crescido, confesso que se não fosse a hora, mas essencialmente a temperatura, visto ser uma projeção ao ar livre e lá tínhamos ido.


mas sábado não resistimos, e fomos até ao jardim da Estrela. talvez meia centena ou mais de pessoas acompanhadas dos seus filhos não arredaram pé, apesar do frio que se começava a sentir com a entrada da noite. uma hora de cinema, com filmes mais surpreendentes pelo argumento, outros pela sua estética.

"O Elefante e a sua Bicicleta", de Olesya Shchukina, uma produção belga feita com o recurso a recortes de papel.




"Eu e o Meu Panda de Estimação" de Camille Billaud, Doriane Lopez e Domitille Mellac, França, mostra-nos as tentativas falhadas de um rapaz em domesticar um panda e na compreensão de valores maiores.




"Anão Gigante", de Fabienne Giezendanner, baseado num conto tradicional sobre o ritual de iniciação para a idade adulta.





"Foco" de Maria Matusevich, Bielorússia, foi o filme mais surpreendente pelo seu desfecho.



Não faltou "Lápis Mágico" uma série de televisão polaca que a geração de Vasco Granja teve o privilégio de conhecer.
"O Lápis Mágico", no original "Zaczarowany Olowek", cujos episódios, com cerca de 10 minutos cada, giravam à volta de um menino que tinha como amigo um duende que por sua vez lhe emprestava um lápis com capacidades mágicas, tudo o que o menino desenhava acabava por materializar-se, tanto objectos como animais. O menino tinha ainda um inseparável companheiro, um cão amarelo, muito irrequieto e inteligente, que o ajudava em inúmeras situações.

e ainda a "A Lagarta e a Galinha" e o "Pequeno Pássaro e o Esquilo", este último de Lena von Döhren




cá em casa já escolhemos os dias que queremos sentar-nos no São Jorge

9/53

um fim de semana cheio que começou na sexta à noite com a apresentação da classe de piano.

uma sessão à noite no jardim da Estrela para uma projeção da Monstrinha.

mar e brincadeiras...


A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.Shot on iphone 6

2.27.2015

regresso

regressar independentemente do sítio, é, na maioria das vezes um processo complexo. o cérebro prega-nos rasteiras, sobretudo nesta coisa que é a infância.  há uns bons anos regressei à minha escola primária. um momento de partilha revelou-se em algo totalmente novo.

estava no Estoril, numa das muitas escolas do Estado Novo, mas aquela caixa de fósforos não era a minha escola. não podia ser.

lembro-me do primeiro dia de escola em que três tentámos ficar na mesma carteira, o que se revelou impossível, de um rapazinho que chorava e da cara dos pais que esperavam expectantes pela nossa saída.

eram quatro salas, quatro anos. a minha irmã do meio estava no último ano quando eu entrei para a escola. ela pertencia aos crescidos. o recreio não sendo dividido acabava por ser porque não nos misturávamos. a medo percorria a escola de uma ponta à outra para a ver. era um feito.

era. mas é também uma mentira.

meia dúzia de passos e estaria na ponta oposta. senti-me pequena na mentira de ter uma escola grande. processei as rasteiras que o cérebro teima em nos pregar.

voltei novamente e já com o Manuel pela mão. depois de tantos anos houve um momento de partilha, realista e com menos coração na boca.

Regresso de Natalia Chernysheva, é um livro sem palavras que relembra-nos tão bem estes momentos, como num piscar de olhos passamos de anões a gigantes e vice-versa.



são cheiros, sabores, sons, afectos que mudam a nossa forma de ver e estar. um livro carregado de poesia.



hoje era o teu dia de anos, fazes-me falta. fazes-nos falta.
um dia ainda vou cumprir aquela lista que tu teimaste em acrescentar nomes.

lembro-me dos últimos dias que passaste lá em casa e da última exposição que vimos juntos. dizias-me; - sei quais são os teus preferidos...

deste-me 6 meses de sobrevivência no Alentejo e contra todas as expectativas permaneci tempo demais.
já estamos em Lisboa e preciso tantas vezes de ti

também aqui já há flores a despontar


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