2.27.2015

regresso

regressar independentemente do sítio, é, na maioria das vezes um processo complexo. o cérebro prega-nos rasteiras, sobretudo nesta coisa que é a infância.  há uns bons anos regressei à minha escola primária. um momento de partilha revelou-se em algo totalmente novo.

estava no Estoril, numa das muitas escolas do Estado Novo, mas aquela caixa de fósforos não era a minha escola. não podia ser.

lembro-me do primeiro dia de escola em que três tentámos ficar na mesma carteira, o que se revelou impossível, de um rapazinho que chorava e da cara dos pais que esperavam expectantes pela nossa saída.

eram quatro salas, quatro anos. a minha irmã do meio estava no último ano quando eu entrei para a escola. ela pertencia aos crescidos. o recreio não sendo dividido acabava por ser porque não nos misturávamos. a medo percorria a escola de uma ponta à outra para a ver. era um feito.

era. mas é também uma mentira.

meia dúzia de passos e estaria na ponta oposta. senti-me pequena na mentira de ter uma escola grande. processei as rasteiras que o cérebro teima em nos pregar.

voltei novamente e já com o Manuel pela mão. depois de tantos anos houve um momento de partilha, realista e com menos coração na boca.

Regresso de Natalia Chernysheva, é um livro sem palavras que relembra-nos tão bem estes momentos, como num piscar de olhos passamos de anões a gigantes e vice-versa.



são cheiros, sabores, sons, afectos que mudam a nossa forma de ver e estar. um livro carregado de poesia.



hoje era o teu dia de anos, fazes-me falta. fazes-nos falta.
um dia ainda vou cumprir aquela lista que tu teimaste em acrescentar nomes.

lembro-me dos últimos dias que passaste lá em casa e da última exposição que vimos juntos. dizias-me; - sei quais são os teus preferidos...

deste-me 6 meses de sobrevivência no Alentejo e contra todas as expectativas permaneci tempo demais.
já estamos em Lisboa e preciso tantas vezes de ti

também aqui já há flores a despontar


2.24.2015

duas exposições, dois filmes

dois autores, dois países e duas estéticas com preocupações humanistas idênticas.

esta é a oitava exposição que o Festival Monstra apresenta no Museu da Marioneta, onde junta a realizadora eslovena Špela Čadež e o português José Miguel Ribeiro e apesar de estar patente ao público até 19 de abril, decidi antecipar a nossa visita para que o Manuel pudesse ver as marionetas, os espaços cénicos em bruto antes de assistirmos aos filmes, embora tenhamos visto em dezembro Papel de Natal, o que também lhe trouxe uma outra perspectiva sobre o filme.

são duas grandes exposições e por esse motivo vou separar estes dois realizadores deixando o José Miguel Ribeiro para segundo por ter muito a falar sobre o seu trabalho. em 2008 tinha trazido para este blog sob o título a saudade tem a cor dos teus olhos, o livro O Rapaz que Aprendeu a Voar com ilustrações suas em que o rapazinho se assemelha muito à personagem de Papel de Natal.

Špela Čadež foi a vencedora da Monstra 2014 e tem arrecadado centenas de prémios em todo o mundo. filmes que são um estudo do ser humano e da sua relação com o outro e isso é bem visível nesta exposição com maquetas de alguns dos seus filmes.



Boles

Filip vive num bairro pobre. Sonha em ser um famoso escritor e ter uma vida de luxo na zona mais rica da cidade. Um dia, batem à porta de Filip. A sua vizinha Tereza, uma prostituta mais velha que Filip tenta evitar a qualquer custo, pede-lhe que escreva uma carta ao seu noivo. Filip aceita. E tudo ficaria bem se uma semana mais tarde Tereza não aparecesse de novo à sua porta, pedindo-lhe que escrevesse uma resposta à carta anterior.








Zasukanec

A rotina diária na loja de um alfaiate é tão turbulenta que, de forma a lidar com tudo isto, é necessário fazer algumas brincadeiras. A fantasia e a espontaneidade nunca são demais. Quando o alfaiate pensa que está sozinho, gosta de ficar com os seus pensamentos. Mas o que acontece quando o amor entra no jogo e os seus pensamentos deixam de ser controlados? 



lembra tanto a história da boneca que Oskar Kokoschka mandou fazer a Hermine Moos, uma forma de materializar o amor proibido por Alma Mahler, na altura mulher do grande compositor Gustav Mahler.





Lovesick

Dor no coração, lágrimas que nunca secam e corações magoados difíceis de curar, mas felizmente não incuráveis...







há duas semanas entrou para um dos meus ateliês uma criança de 4 anos que se chama Lovedeep.

apaixonei-me.


na exposição encontramos ainda maquetas do filme FEFF.




e havia tanto para contar


as sinopses dos filmes foram retiradas dos painéis que incorporam a exposição.

8/52

pequenas coisas, mas essencialmente porque já estava atrasada neste projeto (um dos blogs mais inspiradores).

todas as fotografias que tenho publicado do Manuel não são encenadas, tratam-se de momentos do nosso dia a dia em locais uns melhores do que outros e de um post que publiquei em setembro sobre celebrar os dias e as pequenas coisas, também ele um projeto, mas que guardo só para nós. Ah e hoje é dia de ir buscar a nova flow.

quem conhece o Manuel sabe que cortar o cabelo é sinónimo de ir à forca. gosto de o levar ao meu cabeleireiro porque ao contrário de muitos outros espaços este é um sítio calmo, sem a habitual correria de gente a tropeçar em carrinhos de escovas e calhas infindáveis. confesso que é um dos luxos a que me permito. não lavo a cabeça em casa. custa-me o movimento dos braços e sinto que fica sempre mal lavado.

compensa a ida ao carrasco com um livro, o que não facilita nada o trabalho. olha-me de soslaio quando percebe que o estou a fotografar, uma espécie de segunda ida ao carrasco...

A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.Shot on iphone 6

2.20.2015

de um tempo que é longo

o solstício de Inverno marca o início da respetiva estação, no entanto traz com ele a promessa de um pouco mais de luz por cada dia que passa e é em janeiro que ganho alento porque não gosto dos dias pequenos, talvez porque me soe a tacanho. janeiro passa-se com uma aparente calma, o rescaldo das festas pede ao corpo descanso, mas fevereiro sendo o mês mais pequeno traz o peso da lonjura dos dias. fevereiro torna-se longo na sua pequenez.

porque os dias ainda são muito pequenos, refugiamos-nos em sítios e com quem nos traz conforto.



a Casa de Chá de Santa Isabel antigas Vicentinas surgiu na década de 50 do século XX, com um grupo de mulheres que apoiavam o bairro da Curraleira, uma das zonas mais desfavorecidas da cidade de Lisboa.
estas mulheres viram na arte da costura uma forma de rendimento que permitisse aquelas famílias algum sustento e acima de tudo criar uma fonte de auto estima e estabilidade para os habitantes do bairro.

em 1956 cria-se um ateliê onde cerca de 50 mulheres operam nesta arte, orientadas por duas modistas. o sucesso não tardou e as Vicentinas inspiradas nas suas viagens a Paris ou Milão, as capitais da moda, traziam para a Curraleira o que de melhor se fazia lá fora, o que fez com que este projeto atingisse dimensões bem visíveis. era preciso mostrar o que lá se produzia e com essa necessidade cria-se a primeira passerelle num antigo armazém, onde eram servidos scones e chá, a que muitos chamaram O Melhor Lanche de Lisboa.

do grupo original apenas estão vivos dois membros e que têm feito com que este espaço não morra, mantendo-se fiel aos princípios das Vicentinas sendo o seu lucro para obras sociais.

o Manuel continua a dizer que os meus scones são os melhores do mundo, mas talvez seja o AMOR que o leva a ter o coração na boca.

uma coisa garanto, os scones são ótimos e somos muito bem recebidos. a calma impera neste espaço, pelo menos à nossa hora e nos nossos dias e que quero que se mantenha assim.

não é para gente apressada. é para quem aprendeu que andar é bom.

aproveito para publicar as fotos, atrasadas do projeto once a week

7/52






A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.Shot on iphone 6

2.15.2015

a escola nunca mais será igual

apesar de ser muito recente no mercado português, já tinha tido a oportunidade de levar, "Não fiz os trabalhos de casa porque...", para os meninos com quem trabalho, antes de ter tido a oportunidade de ouvir a voz de Davide Cali no Colóquio "É então isto para crianças?"

confrontados com esta grande questão, percebi que as desculpas eram na sua maioria muito iguais e longe da imaginação prodigiosa de uma criança.

apesar de não desenvolver o meu trabalho assente em livros, são muitas as vezes que iniciamos os ateliês vendo as obras de grandes mestres da escrita e da ilustração.

hoje acredito que da próxima vez que aqueles meninos não fizerem os seus trabalhos, o dia de aulas será muito diferente.

longe de serem desculpas esfarrapadas, refletem no fundo aquilo que a nós adultos nos apetece dizer quando por qualquer motivo falhamos um compromisso.

apetecia-me mostrar muito deste livro, mas são tantas as desculpas e qual delas a melhor.

resolvi trazer duas páginas que traduzem os mercados editoriais. originalmente proposto para um público americano, o autor e ilustrador viram-se obrigados a alterar a página onde se lê que a criança foi atacada por Vikings.

originalmente o protagonista da história desculpa-se com um ataque de índios, algo que está muito presente no nosso imaginário dos filmes Westerners, mas não, o mercado americano não se consegue rir desse passado que mancha a sua história.

também a cantora sofreu alterações, depois de um fato de banho, passou para um top e uma minissaia que a deixou mais sensual e mostram-se ainda incapazes de lidar com o assunto corpo.

aparte destes detalhes o livro está cheio de deliciosas desculpas e brilhante será a criança que use da sua imaginação para contar a versão mais absurda na próxima vez que se esquecer de fazer os trabalhos.

as ilustrações são de Benjamin Chaud e já conhecíamos o seu trabalho através dos livros, "A Cantiga do Urso" e "As Férias do Pequeno Urso" também editados pela Orfeu Negro sob a chancela OrfeuMini




2.10.2015

É então isto para crianças?

durante dois dias a Gulbenkian juntou gente que se questiona sobre o que se cria tem um público à partida definido ou se numa fase final e última o que é criado encontra a quem se destina.

um colóquio que viveu de reflexões entre escritores, ilustradores, músicos, cineastas sob uma palavra-chave: Partilha.

a presença do escritor italiano Davide Cali e do ilustrador Serge Bloch foi talvez dos momentos mais marcantes do encontro, porque e apesar de já terem trabalhado juntos, nunca se tinham encontrado pessoalmente.




(versão completa disponível no itunes)

se a língua da criatividade é a língua mãe, foi o francês a língua escolhida por estes dois homens para a sua partilha e confesso ter tido a necessidade do tradutor porque faço parte de uma geração em que francês deu lugar ao inglês como língua obrigatória.

segundo Davide Cali as crianças são um público mais aberto, mas também mais exigente e a sua escrita acaba por ser transversal à idade, Bloch partilha desta ideia dizendo que o difere entre estes dois universos é o tamanho.

nesta conversa, confesso algum descontentamento pois esperava ter ouvido mais os oradores..., nomeadamente Francisco Vaz da Silva.

do que foi pedido a cada um como "objeto" de partilha fica a escolha de Cali, 1979, dos Smashing pumpkins

e algumas curiosidades do recente livro "Não fiz os trabalhos de casa porque..." de Davide Cali e Benjamin Chaud, editado pela Orfeu Negro sob a chancela Orfeu Mini e que será alvo do próximo post.

Inês Fonseca Santos foi a Comissária do Colóquio. Parabéns!

6/52


e assim cumprimos a semana, já quase restabelecidos e num almoço que junta gente do coração.

um restaurante que é sempre agradável em dias limpos  porque tem um jardim magnifico para os mais pequenos explorarem.

estas palmeiras também não escaparam à praga do escaravelho africano, deixando o céu aberto.

A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.Shot on iphone 6

2.04.2015

o chapeleiro e o vento


 

a Catarina Sobral faz parte de um punhado de ilustradores portugueses de que gosto particularmente, não só pela estética do seu trabalho, mas pela capacidade criativa que se sente latente em cada um dos seus livros. gosto cada vez mais destes ilustradores-autores que estão a conseguir trazer para o plano do livro infantil uma lufada de ar fresco.

com um trabalho muito impregnado pela gravura, Catarina surpreende-nos em o Chapeleiro e o Vento, não só pelo novo grafismo, mas sempre pelas excelentes narrativas.
a bicromia torna este livro ainda mais intenso.

apesar de recorrer a uma outra técnica de ilustração o seu traço e as personagens a que nos habituou estão lá e com um detalhe que lhe é característico.


e a uma sempre invocação a grandes mestres das artes.

um chapeleiro capaz de fazer todo o tipo de chapéus, 'os que não apertavam, não pesavam, não aqueciam, não deixavam entrar o frio e a chuva. chapéus feitos para as coisas perdidas na escuridão, para quebrar o silêncio. chapéus altos para esconder as ideias, chapéus-de-esquecer para corações não correspondidos. chapéus-de-chuva para temporais, precipitação média e chuva molha-tolos. chapéus-de-sol para as férias grandes e para as férias pequenas'

Mas o que era realmente especial nos seus chapéus é que não se perdiam nem podiam ser levados pelo vento.

mas faltava-lhe um que ainda não tinha inventado...


... um chapéu para o Vento levar.


mais uma fantástica edição da apcc.


hoje a Catarina trouxe mais uma bela surpresa e segundo ela para a semana estão na calha mais três. estamos contentes.





5/52

às cinco semanas deste projecto percebi que não é fácil, além de uma dada disciplina, é contar com uma fase em que as fotografias não lhe dizem nada, e a juntar uma semana em que fomos os dois à cama com febre e muita tosse.
apesar da febre pedi-lhe um sorriso. ele pede mimo. muitos mimos e eu recuo no tempo e não me recordo da minha mãe doente e percebo que as minhas duas idas à CUF, entre aerosois e cortisona nadam significam quando eles estão doentes.A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.Shot on iphone 6




1.28.2015

Bastardo

o Bastardo tem tudo para ser o filho ilegítimo da cozinha portugesa, não fosse a capacidade de quebrar as regras cozinhando português e misturando culturas.

o Bastardo "é fruto do verdadeiro amor, o proibido", onde em nome de uma cozinha tradicional somos surpreendidos pela criatividade da cozinha contemporânea.



é impossível ficarmos indiferentes a esta magnífica luz que invade o espaço e a nossa alma.

com uma vista soberba para o Rossio, este espaço transmite uma calma traduzida entre a fusão do tradicional e o sofisticado.

o International Design Hotel recuperou a alma boémia do histórico Hotel Internacional com o propósito de "restituir o esplendor e as tertúlias culturais, de uma Lisboa despreocupada que procurava nos restaurantes dos hotéis os melhores locais para os prazeres da mesa, para a troca de ideias e até conspirações".



à mesa juntámos três pessoas importantes e ficámos a sonhar com o Verão que trouxe para outras mesas mais um punhado de gente do coração.

venha o Verão...
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