1.23.2015

deixarem voar

Ícaro de Federico Delicado foi o vencedor do Prémio Compostela para o melhor álbum ilustrado de 2014.

Um texto muito contemporâneo, capaz de "despertar as consciências, sendo simultaneamente provocador e esperançoso".

Segundo o júri, Ícaro presta homenagem a dois grandes criadores, Kafka e Edward Hopper.
um livro em que cada página abre a possibilidade de novas leituras.

um livro que é uma ode à diferença, obrigando à reflexão sobre como estamos a criar e a educar as nossas crianças. as conclusões precipitadas e superficiais que se fazem, as rotulagens que os adultos prontamente tiram da gaveta, sem muitas vezes avaliar todos os factos.

O lado mais cinzento e Hopperiano tem início quando um rapaz chega a um centro de acolhimento, tentando os assistentes descobrir o paradeiro dos seus pais, intrigados com as feridas que tem nas costas. Apesar dos rumores indicarem que o rapaz foi abandonado, este diz-lhes que os pais são pássaros, e que estão em trânsito entre os dois pólos de modo a viverem dois Verões num só. Pedro Miguel Silva

Por outro lado, as cores vivas surgem na dimensão fantástica, de contornos Kafkianos, quando o pai do rapaz vê surgir nas suas costas um par de asas, que o obrigarão a deixar o mundo convencional para procurar outras paragens que aceitem a diversidade e a diferença. Algum tempo depois, também a mãe levantará vôo, deixando o rapaz entregue ao seu sonho de se tornar, também ele, um pássaro. Pedro Miguel Silva

mas não são só os adultos que estão a perder esta capacidade de sonhar, ou será por culpa deles que vemos cada vez mais crianças presas, no modo de agir, de pensar, de julgar quem está mais próximo.
crianças presas às queixinhas, à mesquinhice tão própria de gente grande, mas muito pequena.


porque quero continuar a vê-lo preocupado com o bem estar dos amigos e a ser feliz e livre de participações porque alguém mais pequeno decidiu que atirar aviões de papel era passível de uma nota na caderneta.

não lhe cortem as asas, mesmo as dos aviões de papel...


como disse uma amiga "É muito perigoso ser-se feliz, estar bem, dizer o que se pensa e fazer o que se faz com honestidade e muito trabalho.Há sempre um parvalhão ressabiado"

3/52

atrasada claro, mas para não falhar a terceira semana, os treinos diários...

A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.

Shot on iphone 6

1.13.2015

52 Project

a Julieta é movida por uma força da natureza quase inexplicável. é uma das minhas bloggers favoritas, com um olho e um sentido estético fantástico, aliados a um humor e a uma escrita deliciosa.

o ano passado estive tentada a abraçar este projecto. ela diz que falhou e eu nem sequer o comecei.
aparentemente determinada começo atrasada, mas sinto necessidade de o fazer porque o Manuel entrou na fase de não gostar de tirar fotografias e acredito que num futuro distante sinta a falta delas.

aqui ficam as duas primeiras semanas

2/52


Évora e sorrisos contagiantes.


1/52


Estremoz, feira de velharias e sempre à volta dos espelhos.

A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.

Shot on iphone 6

mundos novos

começámos este novo ano sem pedir muito, mas agradecidos do ano que terminou porque foi um ano de decisões difíceis de tomar, mas que valeram a pena. estamos mais fortes e mais unidos.

comecei este ano a olhar para o mundo dos blogs e a ver que havia grandes perdas. gente que se cansou, gente que se calhar não sabia que era lida quase diariamente, gente que escreve com o coração na boca, que nem sempre mede as palavras certas para parecer bonito a quem lê.

gosto de gente honesta em sentimentos que não floreia a sua vida, que não traz para o espaço virtual uma virtual vida, que vive as palavras como da própria vida se se tratasse.

gosto de ti, de ti e de ti e também de ti, e de tantos outros que estão lá fora e de muitas mulheres e homens que escrevem com desenhos.

decidi terminar o meu período de nojo com um dos livros que ofereci ao Manuel, a quem todos os dias procuro passar o que realmente importa neste mundo, isto depois de ter ido à habitual reunião de notas em que vi pais revoltados por haver excesso de repetentes na turma dos filhos e por se tornarem maus exemplos. vi pais que não percebem que os filhos estão a crescer e que é normal a necessidade de se afirmarem. o Manuel faz parte de um grupo de cinco crianças que entrou para o quadro de honra e o seu melhor amigo é talvez um dos miúdos mais traquinas e que o insucesso escolar é visível, mas é a ele que o Manuel procura porque segundo ele, o D tem um bom coração.

If (Carta a um Filho) escrito em 1910 por Rudyard Kipling, é um poema duro, mas que evoca um mundo de valores nobres, mas acima de tudo cheio de luz.

Se fores capaz de não perder a cabeça quando todos à tua volta
Perdem a deles e te culpam por isso,
Se fores capaz de confiar em ti mesmo quando os outros duvidam,
Mas aceitando perguntar a ti mesmo se não terão um bocadinho de razão;

Se fores capaz de esperar sem deixar que a espera te canse,
Ou sendo alvo de calúnia te recusares a caluniar,
Ou sendo odiado não te deixares levar pelo ódio,
Sem te tornares sobranceiro, nem te perderes em palavras ocas;

Se fores capaz de sonhar, sem deixar que os sonhos te escravizem,
Se fores capaz de pensar , mas não cruzares os braços;
Se fores capaz de viver o Triunfo e a Desgraça
Tratando-os, a ambos, como os impostores que são;

Se fores capaz de suportar ver a verdade das tuas palavras
Deturpada  por velhacos para a transformarem em armadilha para os tolos;
Ou vendo as coisas a que dedicaste a vida, feitas em pedaços,
Te vergares para as reconstruíres com ferramentas já gastas;

Se fores capaz de juntar numa mão cheia todos os teus ganhos
E arriscá-los num "cara ou coroa",
Perder e começar do zero
Sem nunca soltar um lamento;

Se fores capaz de obrigar o teu coração, o teu espírito e o teu corpo
A servirem a tua vontade mesmo depois de exaustos,
E assim manteres-te de pé quando já nada resta dentro de ti
Excepto a força que lhe diz "Aguentem!";

Se fores capaz de falar às multidões sem perder a virtude, 
Caminhar com reis sem deixares de ser simples,
Se nem os teus inimigos, nem os teus amigos mais queridos te conseguem magoar,
Se todos os homens contam contigo, mas nenhum dispõe de ti;

Se és capaz de preencher o fugaz minuto
Com sessenta segundos vividos plenamente,
Tua é a Terra e tudo o que nela existe,
E - o que mais importa - serás um Homem, meu filho!

Segundo Mauro Evangelista, o autor das ilustrações desta edição da A Esfera dos Livros, 'toda a criança que seja educada na união do mundo mítico e do moderno pragmático poderá construir mundos novos.

que assim seja...

12.24.2014

at last


os dias precipitaram-se mais depressa do que desejávamos e não houve tempo para vir aqui contar tudo aquilo que me apetecia, de mostrar todos os livros escolhidos para o Manuel, mas a vida prega-nos partidas e os dias passados com o meu pai no hospital foram demasiados.

demasiados porque nos deixam muito tempo para pensar, perceber que apesar de muito somos pouco.

a última ilustração de 2014 para O Corvo e os votos não de um Natal feliz, mas de aproveitar cada dia como se se tratasse  do último.

e como escreveu o Manuel o mais importante é a família e os amigos.


12.16.2014

um lobo que nem sempre foi bobo

na música de João Gilberto encontramos um lobo que "promete tudo, até amor" e que para ter o capuchinho "faz papel de bobo" terminando num lobo amansado por aquela menina destemida, também Chico Buarque nos presenteia com um Chapeuzinho, este amarelo, que tem medo de tudo, sobretudo de um lobo que nunca viu. uma menina diferente da primeira, pelo menos na primeira abordagem, porque no desenrolar da narrativa o grande medo desfaz-se e o LOBO não passa de uma brincadeira de palavras.

mas nem sempre foi assim. apesar de a história do Capuchinho Vermelho ter sido popularizada pelos irmãos Grimm, foi no final do século XVII com Charles Perrault que esta história ganha contornos mais físicos, depois de ter sido publicada nos "Contos da Mãe Gansa". escrita para divertir a Corte de Luís XIV, é uma história sem um final feliz, porque a jovem enganada pelo lobo deixa-se comer.

no século XIX chegam aos irmãos Grimm duas versões, uma contada por Jeanette Hassenpflug e outra por Marie Hassenpflug. a família Hassenpflug foi a maior fonte de riqueza oral para os irmãos Grimm. as duas versões ganham forma nesta nova versão, sendo o final de Perrault alterado, onde o caçador abre a barriga do lobo retirando avó e neta do seu interior, após algumas revisões, a versão final da história é publicada em 1857.

o século XX traz com ele uma série de adaptações mais ou menos reescritas deste conto e surge uma leitura freudiana do mesmo conto.

confesso que tenho um particular interesse por este conto e em nada se prende com explicações freudianas, um lobo que é capaz de seduzir uma mulher já velha porque tem em vista a rapariga nova, é para mim um bocado absurdo, ou sou eu que vivo num conto de fadas e acredito que o amor verdadeiro não engana.

a verdade é que vivo mais ou menos apaixonada pelas imagens de muitos outros ilustradores...

recentemente a Milimbo editou pelas mãos de Raquel Saiz uma nova versão deste conto, que pouco tem para ler, apesar de vir acompanhado de um pequeno livro que funciona mais como um guia de leitura. mas é um livro objeto absolutamente fantástico e que não podia deixar de o oferecer ao menino mais doce que me habita.




um livro onde podemos ser qualquer uma das personagens e sem qualquer pudor.


e apesar de te teres saído da minha barriga permanecerás sempre ligado a ela...

12.15.2014

um novo ano de ti


parece que foi ontem que escrevia este texto, e tal como as outras mães sente-se na pele e no coração o crescimento dos nossos filhos. um ano em que te tornaste mais cúmplice numa amizade que se quer manter sempre entre mãe e filho.

cresces em cada foto e o receio que alguns tinham da tua mudança para a grande cidade mostrou-se infundada. a tua personalidade revelou-se mais uma vez e isso deixa-nos tranquilos.

no último sábado e na festa de Natal da Academia de Música cantaram uma das mais bonitas versões do Natal de Elvas
(...) Nossa Senhora faz meia
Com linha feita de luz
O novelo é lua cheia
As meias são p'ra Jesus. (...)

 e se há presentes que são fáceis de embrulhar há um que hoje me vai dar uma grande dor de cabeça...

12.12.2014

o Natal dele

no último post escrevi que tínhamos sido presenteados por um amigo para além de todas as expectativas, até porque não havia nenhuma para além do magnifico fim de semana que nos ofereceu, mas não o B. fez-nos a deliciosa surpresa de escolhermos as luvas que quiséssemos.

em tempos aquela herdade teve de tudo, ainda mantém algumas coisas, mas hoje as antigas casas dos trabalhadores estão mais ou mesmos convertidas em sítios de permanência sejam para os adolescentes que já não têm paciência para as nossas conversas, ou para nós que queremos conversar mais ou menos sossegados. mas há uma casa em particular que fez a delícia dos convivas...

uma casa que chegou a fabricar luvas para a casa Dior e que hoje resume-se a caixotes cheios dos mais variados feitios, cores e tamanhos e a um amontado de peles para forros.




perdemos-nos na escolha de luvas, nas brincadeiras com modelos mais arrojados e invariavelmente nos objectos associados à manufactura.

todos os anos o Manuel tem direito a um budget controlado para os presentes que quer ser ele a oferecer à família e este ano já tinha começado as suas compras, mas este fim de semana trouxe-lhe a oportunidade de escolher para a irmã, para as primas, para as tias e mais família um GRANDE e BOM presente.

para ele escolheu umas luvas de carneira.

(esta fotografia é dele)

e os embrulhos como sempre são feitos por nós, carregados com o mesmo afecto que o seu conteúdo




12.11.2014

de um outro campo

são muito mais do que 180 km o que nos separa. um amigo em conversa acha que fui demasiado cedo viver para o "campo" o que contribuiu para o desgosto que sinto por Avis.
não criei anticorpos e não chego ao sectarismo do FJV ao dizer que a única coisa boa que existe em Avis é o Montinho, não para além do Montinho há um bom punhado de amigos que estão lá e que me deixam com saudades.

reservamos alguns fins de semana para voltar, mas ainda é duro, talvez porque a casa ainda seja um extensão do meu corpo, porque os livros, a música e a maioria dos objectos ainda estão lá. volto quase sempre com um nó na garganta ainda incapaz de, e à semelhança de outros amigos que também têm casa lá, sentirem a terra ou melhor a casa como um refúgio, um descanso.

mas o Alentejo não é Avis e o último fim de semana foi passado na herdade de um amigo, na Vidigueira, é prova de que o campo também me corre nas veias. percebi uma vez mais que os amigos são pilares importantes para a nossa sanidade.

ou desgraça... segundo um provérbio muçulmano "em casa dos meus amigos o pecado fica para os meus amigos", o que permitiu falsamente aliviar a consciência de estar a beber um branco ao meio dia acompanhado de queijos e enchidos.

o Manuel cresceu a ver casas com história a serem reconstruídas, à mãe a ser uma espécie de respigadora de objectos, o que contribuiu para que hoje só peça uma casa bonita, mas NOVA.
apesar de todos os problemas que as casas antigas têm, mesmo depois de recuperadas, a manutenção é um deles, é nestes detalhes que encontro alimento para a alma.




e também nas histórias que as casas encerram, dentro ou fora das suas paredes.



e podia ter passado os dias a fotografar, só, os azulejos

os de fora...





...e alguns de dentro.





como se não bastasse as conversas, os passeios, os almoços, no último dia fomos sobejamente presenteados, mas sobre isso fica o próximo post, porque fez a nossa e sobretudo a delícia do Manuel.




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