8.12.2015

Lourdes Castro e a 32ª semana

a exposição Lourdes Castro | Todos os livros, é uma paragem obrigatória para os amantes da arte, do grafismo e do livro enquanto objeto artístico.

esta exposição reúne cerca de 40 livros produzidos desde os anos 50 até hoje e muitos deles nunca tinham sido expostos, entre eles existe uma sala dedicada a Un Autre Livre Rouge, feito em Paris no início dos anos 70 em colaboração com Manuel Zimbro.

quando pensamos que a exposição está a terminar, ela reinventa-se nesta sala, sendo uma exposição dentro de outra.

Un Autre Livre Rouge é um trabalho começado em 73 por causa do Livro Vermelho de Mao, onde ambos recolhem tudo o que se relacione com a cor encarnada.

embora sejam dois volumes, só um deles é apresentado nesta exposição aguçando a nossa curiosidade, já que foi um livro pensado para ser exposto.

uma exposição que percorre uma linha temporal desde os seus trabalhos ao estilo do Novo Realismo onde a Assemblage, termo trazido para a arte por Jean Dubuffet, que parte do principio que todo o material pode ser incorporado a uma obra de arte, até aos seus Avessos Encadeados.

os livros bordados, da série Avessos Encadeados, são livros de duplas leituras. a palavra que do avesso passou a ser outra coisa, linhas desenhadas que já não dizem o que a agulha escreveu.

"Lourdes Castro olha agora para esse avesso – “gosto de ver o avesso, acho-o bonito, tudo pode ter interesse” – e inicia uma nova página do seu livro, em que borda as linhas desse avesso. A palavra, que já não era palavra, muda outra vez, deslaça-se um pouco mais. E Lourdes volta a virar a página e descobre o avesso do avesso. E borda-o. Podia continuar assim até ao infinito. A palavra recompõe-se noutras formas, enrola-se sobre ela mesma, perde-se no espaço. É o avesso do avesso do avesso do avesso."
in Público

uma última sala onde podemos ver cada livro a ser folheado, página a página, reduzindo a vontade de tocar em alguns deles, mas sim é pouco, falta o toque, o cheiro, o nosso ritmo de leitura.

"fur Manuel"

que me acompanha ao ritmo dele...


8.05.2015

30_31/52 e uma grande semana

a menos de uma semana do nosso regresso estamos carregados de saudades desses dias. passou tudo muito rápido...

o coração é reconfortado pelas memórias, pelos cheiros, pelas experiências e por dois possíveis projetos que nos vão devolver às ilhas.

do que aprendemos:

águas-vivas, nadámos por ignorância no meio delas pensando que o termo aplicava-se às marés. tivemos sorte...

houve tempo para contemplar a paisagem, usufruir dos banhos de mar, da comida, dos passeios, da companhia dos amigos, que nos trataram como filhos e ao contrário do que dizem sempre as previsões, o sol brindou-nos sempre.

para ser verdadeira, a tarde do último dia esteve agoniado (nublado, chuva miudinha) termo retirado do Dicionário Sentimental da Ilha de São Miguel, um choro silencioso que anunciava a nossa partida.

o encantamento que o Manuel sentiu nos os primeiros dias pelas hortênsias, levando-o a desenhá-las.

o prazer de se poder fechar os olhos e sonhar, pelo menos eu...

ficam tantas coisas por contar, tantas por mostrar (para os amigos um álbum especial)

A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.








7.22.2015

Anorak e A Loja de Revistas

se há livrarias que gosto de frequentar em contraponto a outras de grandes cadeias, também há um lugar especial para quem, como eu, gosta de determinadas revistas que não têm distribuição em Portugal.

quando vivia no Alentejo a Livraria Barata era uma boa opção, mas nem sempre encontrava o que queria.

com a mudança para Lisboa e no caminho para a escola do Manuel descobri esta loja de revistas e tenho-me como suspeita quando digo que poderia ser "A" Loja, porque não encontro melhor.

o Luís e a Sandra, além da simpatia são aquilo que eu espero de alguém que trabalha, seja no que for, amor, dedicação e profissionalismo e por essa razão fazem de tudo para satisfazer todos os gostos e idades com uma oferta acima de 500 publicações diferentes.

a Kinfolk foi a revista que me levou até à Rua do Loreto, no Bairro Alto, e depois dessa vieram mais, muitas mais, umas que conhecia e que ia namorando nos sites, outras que o Luís vai-me mostrando e que folheamos sem que isso signifique ter de comprar.

como um bom livreiro, também ele sugere e dá-nos a conhecer descobertas dele ou de outros clientes atentos que pediram por "aquela" publicação...

ontem fui invadida por um misto de contentamento e tristeza.

a Anorak (que eu tinha pedido) passou a ser vendida aqui, mas esta loja tem muito provavelmente os dias contados.
o Luís contou-me que o prédio foi vendido, como muitos dos prédios da Baixa Lisboeta, e o destino da Loja está nas mãos do novo proprietário. resta-nos esperar por um bom desfecho.

a Anorak revista que eu já seguia através da app para ipad define-se bem com a frase "The Happy Mag for Kids"


esta edição é provavelmente uma das melhores até hoje. a capa é magnificamente ilustrada pelo o artista francês Amandine Urruty e de facto cumpre o grande ojetivo desta revista surpreender e encantar os leitores, pequenos e crescidos.

apesar de alguns temas mais infantis, uma das coisas boas é o Manuel ler a revista totalmente em inglês tornando-se para ele mais uma janela aberta para o mundo.



esta edição inclui histórias divertidas como o retorno "The Cat With no Hat"

"The Crazy Words Gang", entre muitas outras fantásticas histórias, com ilustrações tão diferentes, mas todas magníficas.


e a história de Harry cujo o trabalho é abraçar e que leva-me a pensar neste outro post.

Harry descreve o abraço ao longo do tempo e como no século XIX, as pessoas procuravam fazê-lo de uma forma discreta, sempre dentro de portas e como a mentalidade mudou nos últimos anos.

Harry incentiva -, Away with kissing on both cheeks, let´s hug!

claro que ainda há muita gente a viver no século XIX...

já nos cruzámos uma vez por outra com alguém que enverga um letreiro que diz "abraço retraindo o corpo com receio desse contacto. o medo tolda-nos o corpo e os afectos.

lembro-me da história de João Manuel Serra, o Senhor do Adeus, que acenava a toda a gente na busca de combater a solidão.

o coletivo artístico multidisciplinar belga BERLIN, deixou-se encantar por este homem e propõe uma obra gráfica, através de um painel gigante interactivo composto por 729 azulejos, colocados na fachada de um edifício localizado na Senhora do Monte, na Graça.

para conhecer melhor este projeto .

não podia deixar de mostrar a página da produção de moda da Anorak, e que foge aos meninos e meninas estereotipados de outras produções de moda, dando esta espaço para a ilustração.


7.20.2015

28/52 e os Filhos de Lumière

Se puderes olhar, vê.
Se podes ver, repara.

José Saramago in Ensaio sobre a Cegueira


como pessoa consciente das minhas fraquezas e limitações, sou na maioria das vezes mais crítica, mais exigente, mais realista com esta grande tarefa da parentalidade. a sensação de se falhar é contraposta com o visível e saudável crescimento do Manuel.

muitos são os pais que receiam sobrecarregar as "agendas" dos filhos com multi-tarefas e falo por mim porque vejo que o M. precisa de brincar e muito e se esta questão da sobrecarga horária não se coloca em tempo de férias, o mesmo leva-me a questionar em tempo de aulas.

nada melhor do que olharmos, vermos e repararmos que cada criança tem o seu ritmo e energia.

o Manuel concluiu o 6º ano com notas fantásticas acumulando com outras tantas na Academia de Música e que o ocupa três dias por semana. para mim já era um horário cheio, mas quem o conhece sabe que é pouco e pudesse ele viveria tudo num só dia...
juntou a este menu o clube de cinema no âmbito do projeto "O Mundo à Nossa Volta - Cinema, Cem Anos de Juventude"

Os Filhos de Lumière é o nome de uma associação cultural, vocacionada para a sensibilização ao cinema enquanto forma de expressão artística. Criada no ano 2000 por um grupo de cineastas e amantes de cinema, no âmbito da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, a nossa associação concebe, organiza e orienta actividades que visam levar crianças e adolescentes nelas envolvidos a apreciar, compreender e criticar as obras que resultam da prática da arte cinematográfica. Sempre foi convicção daqueles que se uniram para fundar esta associação que a melhor maneira de adquirir os saberes que nos propúnhamos construir passava pela aquisição de um saber fazer, ou seja privilegiando uma abordagem prática, um conhecimento decorrente da experimentação.

durante um ano exploraram o maravilhoso mundo da 7ª Arte, passando por aprender a tocar todos os instrumentos e a descobrir o seu espaço dentro deste universo

Desde o ano lectivo 2006-2007 realiza as oficinas “Cinema, cem anos de Juventude”, implicando seis escolas em três regiões de Portugal num dispositivo que integra actualmente sete países da Europa e além-mar (Guadaloupe, Martinica, Brasil, República de Cuba) com três encontros anuais entre os participantes dos vários países em Paris na Cinemateca Francesa que coordena este programa pedagógico..

o entusiasmo foi sempre crescendo até aos dias em que as filmagens ganharam um tom mais sério e a euforia dos dias que se seguiram enquanto montavam o filme.

Em 2014, os dois dispositivos pedagógicos Cinema, cem anos de juventude e O Primeiro Olhar em desenvolvimento nas regiões de Lisboa, Moita e Serpa, integram o mais recente projecto desta associação “O Mundo á Nossa Volta” apoiado pelo Programa PARTIS / Práticas Artísticas para a Inclusão Social, um programa promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian.

os filmes das escolas que decidiram embarcar nesta aventura já estão disponíveis no blog (vimeo), com especial enfoque para o filme da Escola Secundária de Camões, com o filme "O Intervalo", feito por alunos entre os 16/17 anos, revelando uma beleza e uma inocência que nos faz recuar no tempo.

A Surpresa é o filme que o Manuel ajudou a construir e embora revelador da idade deles, o que sabe bem é ver o final e perceber que de facto precisam de brincar realizando o sonho de agitar uma garrafa de refrigerante que de outra forma não teria feito.

Se a teoria é rapidamente esquecida, o gesto e a experiência artística ficam no corpo, na memória, no olhar.


A Surpresa from Os Filhos de Lumiere on Vimeo.
O Mundo à Nossa Volta - Cinema, cem anos de juventude 2014-2015 : o intervalo - Filme-ensaio (filme final) do Gupo de Cinema da Escola Secundária Passos Manuel, Lisboa.

o que ganhou neste ano?

uma maior abertura para o mundo e para as pessoas e tempo para brincar. sim, é verdade porque o computador só era aberto ao fim de semana abrindo espaço para outras aventuras.


desta semana fica a experiência de ter ido acampar uma noite...

A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.Shot on iphone 6

7.15.2015

2010 e o PNL

estávamos em novembro de 2000 quando o Alfabeto Trapalhão passou a constar nos livros propostos pela Casa da Leitura da Gulbenkian com este texto muito simpático escrito pela Rute Figueiredo.

foi um dos livros que mais prazer me deu fazer e confesso que tudo à minha volta proporcionava um bem estar acrescido.

o Manuel regressava da escola dos crescidos (1º ano) e acompanhava-me nas ilustrações como fez quando ainda era mais pequenino com outros livros, copiando e reinventando personagens.

o verão chegou e o prazo estreitava-se nas longas tardes quentes do Alentejo, mas sabia bem ir trabalhar para o jardim para as compridas mesas de madeira, que ora serviam de mesa de trabalho ou davam espaço a belos jantares.

foi um tempo de contemplação, do material que tinha para trabalhar, e que material precioso, cartas e documentos com mais de um século foram palco para que as personagens deste livro ganhassem espaço e dançassem ao sabor de uma caligrafia invejável.

foi tempo de contemplar o crescimento daquele menino que se dividia entre banhos na piscina (insuflável) e as compridas mesas de madeira, usando com uma mestria a tesoura na arte de recortar.

como sempre a presença dele dilui-se na minha, entrelaçando gostos, cumplicidades. não podia ter sido de outra maneira, e assim pelas mãos dele nasceram as letras que estão nas guardas deste livro.

da água da piscina descobri papéis escondidos por outras capas e que serviram de fundo a algumas páginas...

hoje e passado estes anos, O Alfabeto Trapalhão com texto de Lurdes Breda e editado pela querida Ana Paula Faria da Gatafunho, entra para o PNL.

é muito bom...

eu continuo a preferir uma sigla que o Miguel Horta usou há pouco tempo, PNF, Plano Nacional Familiar e é assim que vamos escolhendo os nossos livros, sempre com o coração perto dos olhos.


7.14.2015

a repetir até o verão ir embora

há muito que não falava em restaurantes e o prazer que é para mim comer, o que à partida parece incompatível com quem por norma come muito pouco, mas a verdade é que gosto de comer bem e como muito com os olhos.

A Cevicheria foi um dos últimos espaços que fomos degustar e ao contrário de O Talho que é para mim um restaurante de inverno, (com um talho magnífico), ambos do chef  Kiko Martins, o primeiro é sem dúvida um restaurante de verão, não só pela comida como pelo ambiente.

um espaço que conta com apenas 40 lugares e que não aceita reservas, por essa razão se a vontade for grande há que ter paciência ou ir almoçar tarde que foi o nosso caso.

a luz de Lisboa invade este espaço dando-lhe uma vida muito própria.

não sei se é de origem, e se for ainda bem, é a presença do tão bonito mosaico hidráulico

e o que se come?  tudo o que há de melhor na cozinha peruana com um toque de experimentalismo que já sentíamos n'O Talho.

uma boa surpresa foi a manteiga com tinta de choco e um dip de tomate com azeitona acompanhado de um pão de milho feito no restaurante e de um pão branco torrado, mas a estrela neste acompanhamento é o milho peruano que se chama cancha, ligeiramente tostado e servido com sal. trata-se de um milho maior do que o nosso, menos rijo e com um sabor também diferente.

como prato principal o quinoto do mar (quinoa, camarão, berbigão, mexilhão, peixe branco, algas, espuma de ostras e kombu)


podia ter terminado a refeição aqui, mas a gula fez-nos experimentar duas sobremesas e para quem não come muito e não gosta muito de doces revelaram-se um excesso...

deliciosas e bonitas, mas muito doces

uma refeição regada a água (sim, é verdade) e um copo de pico sour, um cocktail feito com aguardente do Peru, sumo de lima, clara de ovo, xarope de açúcar, gelo e especiarias.

brulée de quinoa doce, goiabada e espuma de goiaba

fruta em texturas, natural, crocante, marinada, gelificada e granizada.

27/52

são poucas as vezes que o M deixa-se fotografar sem grandes caretas e por essa razão há que aproveitar. fica uma de uma série para recordarmos mais tarde.

e que saudades que eu tenho desta idade e das férias grandes...


A portrait of my son, once a week, every week, in 2015.Shot on iphone 6 

7.09.2015

quero um abraço



a Orfeu Negro sob a chancela Orfeu Mini tem sido uma das editoras a que é impossível resistir quando edita um livro, seja original ou traduzido como é o caso de Quero Um Abraço da italiana Simona Ciraolo.

o Filipe, um pequeno e solitário cacto descendia de uma família antiga e ilustre, que gostava de parecer bem e que era sempre muito certinha.



ao contrário da família de Filipe a nossa é uma família de abraços e de poucos beijos.
os abraços são mais físicos e mais sentidos do que os beijos.

vulgarmente as pessoas despedem-se com um abraço como um cumprimento cordial, mas eu não falo do abraço da "pancadinha nas costas", mas sim daqueles que damos para dizer o quanto GOSTO DE TI, seja ele a um filho, a um familiar ou a um amigo.

abraçar é quase um virar do avesso, é preciso um à vontade, e um carinho imenso. abraçar é um acto intenso de quem quer mostrar esse amor pelo outro, ao contrário do beijo que se torna fácil.

os beijos podem ser traiçoeiros. Cristo foi traído com um beijo. às crianças pede-se que dêem um beijinho e como eu não gosto de inhos, fico-me pelos beijos.

um dia, o Filipe conheceu um novo amigo. corajoso, confiante...
mas incapaz de resistir aos seus abraços.

não é um caminho fácil para Filipe que aos poucos aprende a gostar de estar sozinho.


fechando-se na sua casa e em si próprio.

até que um dia a sua solidão cruza-se com outra solidão e percebemos que existem pessoas especiais a quem os abraços fazem sentido.

sim, já estou cheia de saudades dos teus braços

este texto é dedicado ao José a propósito de uma conversa que tivemos há dias e ao Manuel o menino que é por si um abraço.
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