12.16.2014

um lobo que nem sempre foi bobo

na música de João Gilberto encontramos um lobo que "promete tudo, até amor" e que para ter o capuchinho "faz papel de bobo" terminando num lobo amansado por aquela menina destemida, também Chico Buarque nos presenteia com um Chapeuzinho, este amarelo, que tem medo de tudo, sobretudo de um lobo que nunca viu. uma menina diferente da primeira, pelo menos na primeira abordagem, porque no desenrolar da narrativa o grande medo desfaz-se e o LOBO não passa de uma brincadeira de palavras.

mas nem sempre foi assim. apesar de a história do Capuchinho Vermelho ter sido popularizada pelos irmãos Grimm, foi no final do século XVII com Charles Perrault que esta história ganha contornos mais físicos, depois de ter sido publicada nos "Contos da Mãe Gansa". escrita para divertir a Corte de Luís XIV, é uma história sem um final feliz, porque a jovem enganada pelo lobo deixa-se comer.

no século XIX chegam aos irmãos Grimm duas versões, uma contada por Jeanette Hassenpflug e outra por Marie Hassenpflug. a família Hassenpflug foi a maior fonte de riqueza oral para os irmãos Grimm. as duas versões ganham forma nesta nova versão, sendo o final de Perrault alterado, onde o caçador abre a barriga do lobo retirando avó e neta do seu interior, após algumas revisões, a versão final da história é publicada em 1857.

o século XX traz com ele uma série de adaptações mais ou menos reescritas deste conto e surge uma leitura freudiana do mesmo conto.

confesso que tenho um particular interesse por este conto e em nada se prende com explicações freudianas, um lobo que é capaz de seduzir uma mulher já velha porque tem em vista a rapariga nova, é para mim um bocado absurdo, ou sou eu que vivo num conto de fadas e acredito que o amor verdadeiro não engana.

a verdade é que vivo mais ou menos apaixonada pelas imagens de muitos outros ilustradores...

recentemente a Milimbo editou pelas mãos de Raquel Saiz uma nova versão deste conto, que pouco tem para ler, apesar de vir acompanhado de um pequeno livro que funciona mais como um guia de leitura. mas é um livro objeto absolutamente fantástico e que não podia deixar de o oferecer ao menino mais doce que me habita.




um livro onde podemos ser qualquer uma das personagens e sem qualquer pudor.


e apesar de te teres saído da minha barriga permanecerás sempre ligado a ela...

12.15.2014

um novo ano de ti


parece que foi ontem que escrevia este texto, e tal como as outras mães sente-se na pele e no coração o crescimento dos nossos filhos. um ano em que te tornaste mais cúmplice numa amizade que se quer manter sempre entre mãe e filho.

cresces em cada foto e o receio que alguns tinham da tua mudança para a grande cidade mostrou-se infundada. a tua personalidade revelou-se mais uma vez e isso deixa-nos tranquilos.

no último sábado e na festa de Natal da Academia de Música cantaram uma das mais bonitas versões do Natal de Elvas
(...) Nossa Senhora faz meia
Com linha feita de luz
O novelo é lua cheia
As meias são p'ra Jesus. (...)

 e se há presentes que são fáceis de embrulhar há um que hoje me vai dar uma grande dor de cabeça...

12.12.2014

o Natal dele

no último post escrevi que tínhamos sido presenteados por um amigo para além de todas as expectativas, até porque não havia nenhuma para além do magnifico fim de semana que nos ofereceu, mas não o B. fez-nos a deliciosa surpresa de escolhermos as luvas que quiséssemos.

em tempos aquela herdade teve de tudo, ainda mantém algumas coisas, mas hoje as antigas casas dos trabalhadores estão mais ou mesmos convertidas em sítios de permanência sejam para os adolescentes que já não têm paciência para as nossas conversas, ou para nós que queremos conversar mais ou menos sossegados. mas há uma casa em particular que fez a delícia dos convivas...

uma casa que chegou a fabricar luvas para a casa Dior e que hoje resume-se a caixotes cheios dos mais variados feitios, cores e tamanhos e a um amontado de peles para forros.




perdemos-nos na escolha de luvas, nas brincadeiras com modelos mais arrojados e invariavelmente nos objectos associados à manufactura.

todos os anos o Manuel tem direito a um budget controlado para os presentes que quer ser ele a oferecer à família e este ano já tinha começado as suas compras, mas este fim de semana trouxe-lhe a oportunidade de escolher para a irmã, para as primas, para as tias e mais família um GRANDE e BOM presente.

para ele escolheu umas luvas de carneira.

(esta fotografia é dele)

e os embrulhos como sempre são feitos por nós, carregados com o mesmo afecto que o seu conteúdo




12.11.2014

de um outro campo

são muito mais do que 180 km o que nos separa. um amigo em conversa acha que fui demasiado cedo viver para o "campo" o que contribuiu para o desgosto que sinto por Avis.
não criei anticorpos e não chego ao sectarismo do FJV ao dizer que a única coisa boa que existe em Avis é o Montinho, não para além do Montinho há um bom punhado de amigos que estão lá e que me deixam com saudades.

reservamos alguns fins de semana para voltar, mas ainda é duro, talvez porque a casa ainda seja um extensão do meu corpo, porque os livros, a música e a maioria dos objectos ainda estão lá. volto quase sempre com um nó na garganta ainda incapaz de, e à semelhança de outros amigos que também têm casa lá, sentirem a terra ou melhor a casa como um refúgio, um descanso.

mas o Alentejo não é Avis e o último fim de semana foi passado na herdade de um amigo, na Vidigueira, é prova de que o campo também me corre nas veias. percebi uma vez mais que os amigos são pilares importantes para a nossa sanidade.

ou desgraça... segundo um provérbio muçulmano "em casa dos meus amigos o pecado fica para os meus amigos", o que permitiu falsamente aliviar a consciência de estar a beber um branco ao meio dia acompanhado de queijos e enchidos.

o Manuel cresceu a ver casas com história a serem reconstruídas, à mãe a ser uma espécie de respigadora de objectos, o que contribuiu para que hoje só peça uma casa bonita, mas NOVA.
apesar de todos os problemas que as casas antigas têm, mesmo depois de recuperadas, a manutenção é um deles, é nestes detalhes que encontro alimento para a alma.




e também nas histórias que as casas encerram, dentro ou fora das suas paredes.



e podia ter passado os dias a fotografar, só, os azulejos

os de fora...





...e alguns de dentro.





como se não bastasse as conversas, os passeios, os almoços, no último dia fomos sobejamente presenteados, mas sobre isso fica o próximo post, porque fez a nossa e sobretudo a delícia do Manuel.




12.10.2014

e é quarta feira

quarta feira é sinónimo de jantar fora e com ela, de descobrir novos espaços ou levá-los aos que já conheço.

o Darwin's Café é um desses sítios que há muito gostava de levar o Manuel, pelo ambiente que só por si suscita um cem número de perguntas, com espaços acolhedores e muito bem decorados que nos transportam invariavelmente para as grandes questões da vida.

jantar significa neste espaço perder a magnifica luz que as grandes janelas deixam entrar, uma luz prata que o rio reflecte.

mas o jantar traz o aconchego do espaço, a luz ténue convida à conversa e ao permanecer.




por vezes os seus ainda dez anos são ingratos por ainda não terem a capacidade de apreciar cada momento de uma forma plena, mas acredito, e por isso o Manuel acompanhou-me sempre, mesmo ainda no marsupial, em exposições, concertos, passeios, não podia ser de outra maneira, tendo a confiança que de todas as coisas vistas, ouvidas e saboreadas ficou alguma coisa dentro dele e que isso o tornará uma pessoa mais rica.

e nós continuamos a descobrir as ruas e as casas desta cidade





12.09.2014

a noite de natal

A Noite de Natal de Sophia de Mello Breyner Andresen é um dos livros que incluímos nos presentes do Manuel.

editado em 1959 e ilustrado por Maria Keil confere a este livro um lado afectivo a que não me consigo distanciar. a pureza do traço de Keil torna este livro ainda mais maravilhoso.

um livro que nos transporta para o verdadeiro valor da amizade e para os valores do que é o Natal.

gostava de poder oferecer ao Manuel, ou a mim, a versão original, mas a verdade é que a recente edição da Porto Editora com a assinatura de Jorge Nesbitt também não nos deixa indiferentes.

vinda de uma família grande em que todos os dias são dias para os aproveitarmos juntos, o Natal não tem esse lado agregador, mas sabe bem a festa, que se prolonga pela madrugada, em que cada embrulho é oferecido, recebido, apreciado e aberto sob o olhar de todos.

são muitas horas, são muitas pessoas, são muitas crianças, algumas já crianças-grandes, mas que vivem esse dia de um modo vibrante.

este ano, e pela segunda vez de que me lembro vai ser um Natal pequeno em número, o que me angústia. tento não pensar não fossem os dias precipitarem-se.

mesmo para os ausentes os presentes estão a postos para o Dia de Reis, data em que estaremos todos juntos.

e desejosos que acabe rapidamente esta divisão por duas casas.


mais uma sugestão de letras para este Natal e do original algumas imagens...




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