4.19.2014

ausências e hoje um coração mais doce

não é só a morte que precisa de luto. há tantas coisas na vida que pedem períodos de nojo. precisei de distanciar-me deste mundo virtual onde os incautos são facilmente apanhados.

cada vez mais são menos os blogs que leio.

cansada de contos de fadas, de mundos de faz-de-conta, de pessoas irreais.

soube bem gozar estes dias com quem nos ama de verdade. que olha para nós sem projecções de um outro alguém e mesmo assim faz-nos sentir especiais todos os dias. num respirar, num olhar, num toque, numa garfada.

voltámos com o coração cheio de mimo e com a promessa de que é o último adeus porque já não suporto ver-lhe lágrimas nos olhos.

voltámos com tanto para contar.

em fevereiro os campos encheram-se de alfazema, o alecrim floriu, mas foram precisos quase dois meses para experimentar esta "receita".



do Cantinho das Aromáticas e da sua presença no Peixe em Lisboa, vieram para casa tomilho laranja e stevia

do Erva Uma Vez veio este açúcar rosmaninhado




e agora é esperar com a certeza que estes dias trouxeram a acalmia necessária para os próximos tempos.


4.08.2014

com o doce sabor da primavera



o início da semana trouxe o doce sabor dos dias mornos.

sabe bem respirar este novo ar livre de bolores e fantasmas.

o novo livro preenche-me agora as mãos, já que a alma foi tomada por este há algum tempo.

os dias precipitam-se a um ritmo violento onde só há tempo para o que é importante.

4.01.2014

levantar um pouco mais do pano

janeiro e fevereiro foram pincelados por pequenos apontamentos deste livro.

a revista Pais & Filhos lançou-me o desafio de criar um livro que acompanhasse a criança ainda dentro do seu ovo.

as frases foram surgindo à medida que as imagens ganhavam vida.

este livro acompanhará a edição de maio da revista Pais & Filhos, por um preço simbólico. depois será vendido separadamente dentro dos preços que o mercado pratica.

mais a sul, em Odemira e no âmbito do projeto "Abril, Leituras Mil", vão poder ver de perto as cerca de 70 ilustrações.

no dia 10 um grupo de crianças vão perceber o que é isto da ilustração.
todos conhecem o desenho e a pintura, mas poucos conhecem a ilustração e o que ela representa no mundo das artes.
uma área que reúne o desenho e a pintura e os leva para mais longe.

3.30.2014

e a vida vai correndo

um novo livro tem-me absorvido mais do que os dias o coração.

não é um tema fácil e por isso precisei de tempo para interiorizar a história e perceber como seria a minha abordagem.

para mim o papel de ilustrador é ao contrário da ideia de muitos escritores um mero executante.

é por isso que os livros passaram a ter a designação de co-autores.

não desvirtuamos o texto, mas temos o dever de dar ao leitor uma segunda leitura longe do texto.

quando o leitor, criança ou adulto consegue ler uma narrativa na imagem sei que o papel de ilustrador foi cumprido.

talvez por isto tenha recusado sempre fazer ilustrações para manuais escolares.

agora que sinto a mão deste novo menino, começamos a dar os primeiros passos lado a lado.

e a mesa de trabalho ganhou novos e lindíssimos papéis.

enquanto este começa vão saindo outras ilustrações por outros sítios.

e se a minha mesa se encheu de flores o mesmo posso dizer do espaço lá fora que nos tem presenteado com outras flores e sabores igualmente deliciosos.



3.25.2014

gerações e uma menina que vem contrariar a tendência

não acredito em coincidências. acredito que há pessoas que nos são próximas, não por serem amigas, mas porque partilhamos de gostos e interesses, porque estamos atentos ao que se passa à nossa volta e não temos medo de elogiar os outros.

no fim de fevereiro escrevia este post e a fotografia da quinoa e do amaranto tinha um segundo propósito, poder falar do livro Mar de André Letria, até porque já tinha escrito para a página infantil do DA.
os pequenos grãos traziam-me a recordação do mar. do meu. poucos dias depois os Hipopómatos falavam dele. recuei.

hoje repetimos o tema. e avancei.

primeiro porque a Catarina Sobral merece o elogio de ter sido a única ilustradora portuguesa a estar na grande feira de Bolonha. a Catarina faz parte de um número reduzido de ilustradores-autores e "O Meu Avô" foi o motivo para a sua presença em Bolonha.

segundo porque não tenho a doce recordação dos avós.

morreu-me uma avó tinha eu 17 anos. chorei-a, mas não era minha. uma avó emprestada, mas de tanto que era dada, também era minha.

morreu-me uma avó aos 11 anos. não fui capaz de a chorar e era minha.
uma distância do corpo de dentro e de fora não permitiram os olhos nem o coração de se lavarem.

foi a única avó que conheci. e pouco.
tenho pena de não ter histórias doces para contar.

tenho pena do M. só ter conhecido dois dos seus avós e em idades que não lhes permite grandes cumplicidades.


a narrativa começa com duas personagens distintas, o avô e o Dr. Sebastião, em tudo até no jogo cromático.

aos poucos as diferenças diluem-se, mesmo quando se fala do avô e quem aparece é o Dr. Sebastião.

Catarina habituou-nos nos primeiros livros a este jogo de invocação a grandes mestres das artes.

como a Édouard Manet. "Faz vários piqueniques na relva, durante a semana... comme il faut"

Le Déjeuner sur l'herbe

Almada e Fernando Pessoa também não são esquecidos.

"O meu avô escreve ridículas cartas de amor... durante horas a fio"

"Todas as cartas de amor são ridículas, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas", o conhecido poema de Álvaro de Campos a Ofélia, a quem pediu que nunca revelasse a sua relação.
sobre a relação, Ofélia apenas disse que morreu quando Pessoa partiu.

ou o quadro de Almada recentemente exposto no âmbito da exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo"


e ainda a Andy Warhol com o seu pug e a referência a grandes celebridades fotografadas com os seu cães.

se o meu tempo, nem do M voou na companhia dos nossos avós, a bebé que aí vem quebra o ciclo desta família em que gerações se confundem.

a C. vai ter avós e bisavós, tios e tias-avós, tios pouco mais velhos do que ela e primos. todos eles capazes de fazê-la perder o tempo.

estamos à tua espera.

3.21.2014

21 de março

"Fiquei à janela a ver a noite
deitar os pássaros no ninho."

Afonso Cruz, O Livro do Ano

e ainda do Afonso

"O António que vive numa casa debaixo de uma árvore, 
completamente ao contrário dos ninhos que ficam em cima,
disse-me:
As asas são as pétalas dos pássaros. 
Um gaio explicou-lhe isso muito bem, mesmo muito bem:
Um pássaro a voar é um arbusto em flor.
E um pássaro branco, que voava por entre os meus pensamentos, acrescentou:
O vento é um voo sem pássaro." 

Os pássaros
 (dos poemas voam mais alto)

uma edição da Apcc

é bom ter amigos assim

em modo floral

excesso de trabalho afasta-me do teclado. os mails, e as poucas idas à internet são feitas via telefone.

o cansaço tem o seu lado positivo. faz-nos abrandar e devolve-me ao tapete que eu mais gosto.

o pouco tempo que sobra é realmente aproveitado para as coisas que me sabem bem.

e a primavera chegou, e com ela trouxe botões nas gardénias, nas begónias e timidamente apareceram dois morangos.

e porque acho que as meninas são dos pais, a filha encheu-lhe as mãos de flores amarelas.

para tudo há um tempo e a natureza encarrega-se de cumprir os seus ciclos, mas há que aprender o ritmo de cada coisa. 

e esta semana teve um sabor especial. ao fim de quase dois meses de trabalho com um grupo de crianças um dos meninos surpreendeu-me com a sua mãe

3.16.2014

green

sim estão na moda. e é fácil encontrá-los em tags como #smoothies, #detox.
há milhares de blogs a falarem sobre o assunto com centenas de receitas possíveis.

não, não passei a beber porque estão na moda.
quem me conhece sabe que há muito a alimentação é uma preocupação na minha vida.

não se prende a dietas muito pelo contrário. faço asneiras, sim. mais do que gostaria, mas procuro compensá-las todos os dias.

obrigada Julieta pelo movimento em que te empenhaste, mais fácil do que este "A portrait of my children, once a week, every week in 2014"

ao fim de 13 anos a viver paredes meias com o campo contam-se pelos dedos das mãos as caminhadas que fiz por estes terrenos.

o dia pedia um passeio e foi a nossa, estreia a apanhar espargos.

impunha-se perceber como era a planta-mãe. depois foi o olhar atento (meu e do M.) de quem o fazia pela primeira vez.


e não se comparam com a última braçada que nos ofereceram.

mas ontem tiveram outro sabor.

para o M. contou a experiência e a vontade de ser ele a preparar um jantar.

mergulhou no livro de Maria Antónia Goes, e porque a falta de tempo assim o obriga ficam prometidos ovos mexidos com espargos para o jantar de terça feira.

- Mãeeeee temos ovos?
- Sim,
(ida dele ao frigorífico)
- Só temos 6 e a receita diz 6 a 8 ovos.
- Se for preciso compramos mais, mas chega.

- Mãeeeee temos dois dentes de alho picados?
- Sim temos alhos.
- Mas picados?
- Não, picam-se na altura.

-  Mãeeeee temos bom azeite?
é que aqui diz que tem de ser um bom azeite.
- Manuel por enquanto ainda vivemos no Alentejo...

e há dias assim longe de quatro paredes, de exposições, de livros.

porque também fazem bem.

3.14.2014

o tempo morno traz com ele a cor

cozinhar para mim é quase um acto de reflexão. não na comida em si, mas em tudo o que a envolve e dou por mim a olhar para a taça e achar que podia ser uma pintura.

por momentos lembrei-me de Tàpies e das nossas inúmeras partilhas.
das conversas que tínhamos há quinze anos e que levavam uma noite.

às vezes lembro-me de ti e sinto saudades.

como prometido a receita está no 220º.

 
dia 1 | porque não consegui desfazer-me desta caixa de ovos e passou literalmente a incubadora.

sim tenho de me agarrar ao novo livro

3.13.2014

como no trapézio

eu saltito de tema, mas dou por mim sempre com a necessidade de acrescentar mais a determinados posts.

já tinha dito que aquilo que mais gostei na Ilustrarte deste ano foi a exposição de Chiara Carrer. gosto do trabalho dela. extremamente plástica.
é bom continuar a encontrar gente que gosta de sujar as mãos.

de toda a exposição, saltaram muitos livros para a minha lista, houve um que teve um particular impacto. não pelo traço que é magnífico, mas pelo tema que sempre gerou em mim uma dualidade de sentimentos.

nunca me imaginei como saltimbanco. preciso de criar raízes para a minha sobrevivência.

mas gosto das personagens e das histórias que cada uma carrega.

não gosto de ir ao circo. em boa verdade fui duas vezes.

a primeira não conta porque era uma miúda tia de 12 ou 13 anos que lhe confiaram o sobrinho de 7 ou 8 em pleno Campo Pequeno. (nos dias de hoje acho que era impensável)

dessa ida só me lembro de duas coisas o medo de perder o miúdo de vista e dos leões que teimavam em usar a arena como um bacio gigante.

chegou para mim. disse nunca mais.

aprendi anos depois que nunca digas nunca.



e lá estava eu com o M. num circo não o Chen, mas num circo de província.

sim foi o espectáculo mais deprimente que vi em toda a minha vida.

os leões não fizeram cocó na arena, porque não havia leões.

os leões foram substituídos por 6 caniches de cor incerta de tão sujos que estavam.

não havia meninas no trapézio, nem malabaristas ágeis. havia dois ou três personagens que alternavam os números entre si.


sinto-me a quarta personagem, da terceira fila a contar da esquerda para a direita.

chegou para mim. voltei a dizer nunca mais.

para mim circo é o grande livro de David Toscana, Santa Maria do Circo.

para mim circo são estes objectos

e não podia esquecer-me do vídeo dos The Soaked lamb de que faz parte o meu amigo Afonso, Palhaços.


3.11.2014

a barriga mexe connosco

achei sempre que as minhas outras mães eram exageradas em relação aos filhos e, entenda-se o exagerado não por serem permissivas face a alguma exigência dos pequenos, mas exageradas de coração.

depois de ter sido mãe percebi finalmente esse exagero. a minha determinação foi abalada e substituída pela ponderação. deixei de fazer algumas coisas de que gostava em prol do bem estar do M.

agora com ele "ligeiramente" mais crescido começo a cortar aos poucos o nosso cordão umbilical, e se é verdade que assuntos como a morte não me assolavam, hoje, dou por mim a pensar e se...

deixei de fumar há uns bons anos porque decidi que queria vê-lo crescer, como se isso fosse suficiente para enganar a Morte.


"O Comboio" da francesa Silvia Santirosi, é um livro com uma narrativa poética que retrata a falta de uma mãe e como aquela criança luta diariamente com essa perda.

com as magnificas ilustrações de Chiara Carrer, a ilustradora convidada para a Ilustrarte deste ano, dão a doçura e a leveza do peso da história.

pensei que já tinha falado neste livro, porque há muito que desejei tê-lo.

"Com a mão, minha filha,
assinalas um ponto luminoso.
Descobriste uma nova estrela."

"Já tinhas acordado
e contavas-me num murmúrio
que todas as noites sonhas a mesma coisa."

o traço simples, mas marcante de Carrer revolve-nos o estômago.

tenho pena de não ver mais livros assim editados em Portugal, por editoras portugesas.

"...Estou sozinha e não sei como chegar à estação.
Então desato a correr.
E corro, corro, corro,
arrastando uma enorme mala branca."

"Quando te perguntei o que trazias lá dentro, olhaste para mim.

-Que estranhas são, às vezes, as perguntas dos adultos! (...)"


(...)

"Era outubro
e tiritavas de frio.
Então dei-te a tua camisola favorita,
a verde,
a que a tua mãe usava
quando tu ainda não conhecias o mundo.
Eras muito pequena
e a tua casa era a barriga dela. (...)"

"-Como continuas o sonho? - perguntei-te.

E olhaste de novo para mim muito séria,
porque, às vezes,
as perguntas não servem.
Há que esperar. (...)"

e todas as noites ali fica a acenar com o bilhete na mão, mas a ver o comboio partir e a desaparecer numa curva

"Nesse momento,
sempre no mesmo momento do sonho,
dizes-me que acordas.

- O que significa, papá? - perguntas-me,
enquanto te encolhes
na tua camisola grande.


"Como explicar-te
que as pessoas de quem gostamos
morrem, deixam-nos e partem?
Como explicar-te
que o amor e a alegria fazem parte da vida
tal como a dor e a tristeza?
Que há vermelho, verde, amarelo...
mas que também há negro? (...)

a narrativa continua com o pai a contar-lhe a história de um homem cego que quis saber como era o branco.
o vizinho disse-lhe que o branco era a cor do leite.

para o cego o branco passou a ser "quente e fumegante como o leite que tomas antes de adormecer"

mas não...

o vizinho voltou a dizer que o branco é a farinha de trigo

e o cego percebeu que o branco era leve e macio, como o tato da farinha entre os dedos.

mas não...

não percebeste, o branco é a cor da neve.

e novamente o cego disse que o branco era frio e húmido e fazia ruídos ao pisar.

o vizinho não se sentia capaz de lhe explicar como era o branco, o branco era aquilo tudo, mas não era o Branco.

porém o cego pela primeira vez soube que "no seu sonho vira o branco"


(...)
"Era tarde.
Bocejaste, minha filha.
Olhaste para mim e disseste:
- Vamos dormir?

"Fechei a janela e levei-te para a cama.
Dei-te um beijo na testa,
como a tua mãe fazia sempre,
e fiquei ao teu lado até adormeceres.

(...)
no dia seguinte finalmente apanhaste o comboio

e agora percebes que a estrela que vês todas as noites, a tua estrela, "não retira escuridão à tua noite, mas estará sempre aí. (...)


não era para ter falado deste livro de Chiara Carrer, mas acabei por fazer por dois motivos. o primeiro porque pensei que o tinha trazido para aqui e não o fiz, e senti que era importante fazê-lo. o segundo e talvez o mais importante é que o próximo livro em que vou mergulhar de coração, aborda o mesmo tema.

da Chiara Carrer existem vários livros que constam na minha wishlist e depois da exposição que vimos gostava de falar num em particular.

este livro não foi reproduzido na integra

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...